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Pesquisa revela que as prisões se tornaram "depósitos de loucos"

Pesquisa revela que as prisões se tornaram "depósitos de loucos"


Segundo revela a primeira pesquisa epidemiológica sobre saúde mental na
prisão, oito homens encarcerados entre dez apresentam uma patologia
psiquiátrica. Para cerca de 10% dentre eles, a pesquisa indica que foi
diagnosticada uma esquizofrenia.

As estatísticas vêm confirmar aquilo que os funcionários do sistema
penitenciário já sabem há muitos anos: as prisões passaram a abrigar uma
maioria de pessoas acometidas de perturbações psíquicas. A primeira
pesquisa epidemiológica sobre a saúde mental das pessoas encarceradas,
publicada nesta terça-feira (07/12), indica que oito homens detidos entre
dez, e mais de sete mulheres detidas entre dez apresentam pelo menos uma
perturbação psiquiátrica, enquanto a grande maioria acumula várias dessas
disfunções.

Os números dizem respeito a patologias tão variadas como as perturbações
ansiosas (56% dos detentos apresentariam ao menos uma delas), as
perturbações depressivas (47%), as dependências em relação às substâncias
ilícitas ou ao álcool (34%) e as perturbações psicóticas (24%).

Revelada em um colóquio sobre a saúde na prisão, a pesquisa foi conduzida
conjuntamente pela Direção Geral da Saúde (DGS) e a Administração
Penitenciária, sob a direção do professor Bruno Falissard, um estatístico
em biologia e epidemiologista, e do professor Frédéric Rouillon, um
psiquiatra.

Cerca de mil pessoas encarceradas em 23 estabelecimentos penitenciários,
que constituem uma amostragem representativa da população carcerária, foram
consultadas entre julho de 2003 e setembro de 2004.

As entrevistas foram realizadas conforme as normas estipuladas pelo Mini
International Neuropsychiatric Interview (Mini), um questionário
diagnóstico que segue um padrão internacional, complementado por uma
entrevista aberta, realizada por um psiquiatra. Centrada na detecção de
sintomas, e não de patologias identificadas, esta metodologia resulta em
muitos casos na descoberta de doenças não detectadas na observação clínica.

Com idade média de 38 anos, os detentos interrogados estavam encarcerados
na sua maioria por agressões contra pessoas, 55% dentre eles sendo objeto
de um processo criminal. Todos eles apresentavam antecedentes pessoais
difíceis: durante a sua infância, 42% foram separados de pelo menos um dos
seus pais durante mais de seis meses, 34% vivenciaram com dificuldades a
morte de um ente querido e 28% sofreram maus tratos físicos, psicológicos
ou sexuais.

Estas dificuldades não esperaram pelo encarceramento para se manifestar:
antes do seu ingresso na prisão, mais de um terço dos detentos já haviam
consultado algum médico desta disciplina, enquanto 16% já haviam sido
hospitalizados por razões psiquiátricas. Além disso, 6% dentre eles haviam
sido atendidos pelo dispositivo de luta contra a toxicomania e 8% por uma
entidade de luta contra o alcoolismo.

Risco de suicídio

Portanto, em muitos casos, estamos diante de perturbações já antigas. No
entanto, o contato com o universo carcerário, conhecido por gerar muita
ansiedade, explica, em parte, que um em cada dois detentos tenha sido
diagnosticado como manifestando perturbações ansiosas ou depressivas.

Entre eles, 31% estariam acometidos de ansiedade generalizada, uma
patologia duas vezes mais freqüente em prisões de delegacias de bairro e em
centros de detenção do que em presídios.

No que diz respeito às pessoas sofrendo de perturbações psicológicas, a
pesquisa apurou que 39% dos detentos apresentam síndromes depressivas,
sendo que uma proporção menor dentre eles se encontra em centros de
detenção.

Os comportamentos vinculados à dependência de drogas ou de álcool, a qual
com freqüência está na origem dos comportamentos violentos que acabaram
resultando no encarceramento, dizem respeito a um terço da população
carcerária: assim, casos de abuso ou de dependência do álcool foram
diagnosticados em 30% dos detentos encarcerados há pelo menos seis meses,
enquanto casos de abuso ou de dependência de substâncias entorpecentes
foram registrados em 38% dentre eles.

Por fim, a pesquisa detectou um risco de suicídio em 40% dos detentos,
sendo que para metade dentre eles, o risco foi considerado elevado. Estes
resultados são coerentes com a taxa de suicídios nas prisões francesas,
que, com 22,4 para 10.000 detentos em 2002, continua sendo a mais
importante na Europa.

Psicose

Os resultados da pesquisa em matéria de perturbações psicóticas são mais
surpreendentes. Sintomática da doença mental, a psicose se caracteriza por
uma perda de contato com a realidade, por uma desorganização da
personalidade e uma transformação delirante do comportamento. São estes
sintomas, que podem se manifestar em certos casos de maneira muito
barulhenta, que mais perturbam a vida em detenção.

Um detento entre quatro (24%) estaria acometido de perturbações psicóticas:
8% apresentariam uma esquizofrenia, 8% uma psicose crônica não
esquizofrênica, 3% uma esquizofrenia disrítmica (associada a distúrbios do
humor) e 5% uma patologia cujo tipo não foi precisado pelos pesquisadores.

Estes números são importantes, tendo em vista as pesquisas que já haviam
sido realizadas em diversos centros de detenção, e que estimavam em cerca
de 10% o número de psicóticos entre os detentos.

Eles fortalecem assim a idéia segundo a qual a prisão teria se tornado o
derradeiro refúgio dos doentes mentais, compensando por meio do
encarceramento a penúria crescente de meios no setor psiquiátrico.

Tradução: Jean-Yves de Neufville