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Maconha - todas as informações

• Maconha: Todas as Informações

Vários leitores nos solicitaram informações sobre os efeitos da maconha no organismo humano.

Atendendo aos pedidos, estamos publicando, abaixo, o estudo sobre a maconha que nos foi enviado pelo Dr. Ronaldo Laranjeira.

Por ser muito extenso, dividiremos em duas partes: boletins nº 27 e nº 28 respectivamente.

• Revisão Científica: Maconha e a Saúde Mental - 2005 - (Parte 2)

O uso de maconha aumento o risco de transtornos mentais ?

O uso de cannabis está associado a maiores riscos de transtornos pelo uso de outras substâncias e está associado a diferentes comorbidades psiquiátricas na população geral. As associações mais importantes entre o uso de cannabis e problemas de saúde mental aparecem quando há uma combinação de fatores individuais constitucionais e efeitos da droga. Há uma associação consistente entre o uso de cannabis e primeiro surto psicótico em indivíduos mais jovens. O uso de cannabis aumenta o risco de incidência de esquizofrenia em indivíduos com e sem outras fatores predisponentes e leva a um pior prognóstico para aqueles indivíduos com clara vulnerabilidade para um transtorno psicótico. Há poucas evidências de associação entre uso infrequente de cannabis e diagnóstico de depressão.Uso pesado de cannabis e depressão parecem associados, sendo sugestivo de que uso pesado pode aumentar sintomas depressivos em alguns usuários.

 

Maconha e Depressão

A associação entre maconha e depressão tem sido demonstrada em diversos estudos transversais, mas ainda não há um consenso se existe uma relação de causa e efeito entre estes elementos. Evidências sugerem que usuários de maconha sem sintomas depressivos apresentam um risco aumentado de apresentá-los no futuro, ao contrário de estudos com indivíduos deprimidos que não apresentam risco aumentado de consumo de maconha. Estudos com gêmeos sugerem que, ao menos em parte, a comorbidade seja explicada por vulnerabilidade genética comum para os dois transtornos. Portanto, a maconha seria um fator de risco para o desenvolvimento de sintomas depressivos.

 

Existe uma relação entre Maconha e Esquizofrenia?

Vários estudos examinaram a relação entre o uso de maconha e a esquizofrenia apartir de evidências recentes provindas de estudos clínicos e epidemiológicos. Estudos clínicos monitorando portadores de esquizofrenia demonstram uma relação entre o consumo de maconha e a exacerbação dos sintomas psicóticos, pior resposta à medicação antipsicótica, e um pior curso clínico da doença (mais hospitalizações, mais recaídas e pioraderência ao tratamento). Quatro grandes estudos prospectivos em três países acharam uma associação entre o consumo de maconha e o risco de desenvolver esquizofrenia ou sintomas psicóticos. Esta associação é maisintensa em sujeitos que utilizaram maconha antes dos 15 anos de idade e com história de sintomas psicóticos. Em conjunto, os achados sugerem que amaconha pode precipitar um quadro de esquizofrenia em indivíduos vulneráveis e exacerbar quadros psicóticos em portadores de esquizofrenia.

 

USO DE MACONHA E ANSIEDADE

O relato de ansiedade constitui o sintoma adverso mais comum após o uso agudo da maconha e sintomas ou transtornos de ansiedade co-ocorrem muito freqüentemente em usuários da droga. Paradoxalmente indivíduos relatam a redução de ansiedade como motivação para o uso da maconha. Estas constatações conflitantes poderiam ser explicadas pela observação de que os efeitos do principal constituinte ativo da cannabis (?9-THC) sobre a ansiedade parecem ser dose-dependente, com baixas doses demonstrando propriedades ansiolíticos e doses mais altas sendo ansiogênicas. Além disto, os outros canabinóides presentes na planta influem em sua atividade e um deles, o canabidiol apresenta propriedades ansiolíticos.

 

TDAH e Maconha

O TDAH é o mais comum dos transtornos emocionais, cognitivos e do comportamento tratados na infância. Sua prevalência é significativa: atinge de 4% a 12% das crianças em idade escolar e até 5% dos adultos. E está relacionado a uma elevada taxa de comorbidade psiquiátrica, principalmente transtorno desafiador opositivo, transtorno de conduta, transtornos do humor e de ansiedade, e tabagismo e abuso de substâncias. O custo social do TDAH não tratado ao longo da vida é considerável, e inclui baixo aproveitamento acadêmico, problemas de conduta, subemprego, acidentes automobilísticos, problemas de relacionamento.

A presença de TDAH dobra o risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de substâncias ao longo da vida, e ambos os transtornos influenciam-se mutuamente, o que traz implicações para o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento de ambos os transtorno. A maconha é a droga ilícita com maior freqüência de abuso entre portadores de TDAH. Adultos jovens portadores de TDAH relatam um efeito calmante proporcionado pela maconha, reduzindo sua inquietação interna. Este efeito reforça a hipótese da automedicação dos sintomas de TDAH como um fator de risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de drogas.

Intervenções farmacológicas e cognitivo-comportamentais ora em uso constituem um tratamento efetivo para o TDAH e dependência da maconha e ajudam os pacientes a superarem os obstáculos em direção a um funcionamento normal.

 

Maconha e Dirigir Automóveis

Pelas evidências apresentadas até agora na literatura, não há unanimidade sobre a real contribuição da maconha, quando consumida sem associação com álcool e outras drogas, no aumento do risco de causar acidentes de trânsito. Sabe-se que a associação do consumo de maconha e acidentes de trânsito é freqüente e que as propriedades farmacológicas dessa substância dificultam habilidades básicas para dirigir-se com segurança. Os estudos também parecem apontar que pessoas com um consumo freqüente de maconha têm uma probabilidade maior de causar acidentes.

No entanto, ainda persistem algumas dificuldades metodológicas. Por exemplo, a utilização de critérios discutíveis sobre a presença recente da droga, o freqüente consumo pelos sujeitos da maconha juntamente com álcool e outras drogas (difícil separar o que é o efeito de cada substância), a falta de inclusão nas análises de fatores confundidores que poderiam explicar as associações encontradas. Essa metodologia é relativamente recente, no que diz respeito ao uso de maconha, e é provável que estudos futuros possam encontrar melhores caminhos.

O que fica claro é que a relação do consumo de maconha com direção não é simples e certamente não pode ser descartada. Como um exemplo dessa complexa relação, estudos recentes investigaram preditores do comportamento de dirigir arriscadamente (dirigir muito rápido pelo prazer, expor-se a riscos na direção por diversão, etc.) em um estudo longitudinal com adolescentes e jovens adultos. Entre as variáveis explicativas desses comportamentos estavam certas características de personalidade e a dependência de maconha.

 

Estudos com terapias psicológicas e usuários de maconha

As evidências mostram que as intervenções breves funcionam: além dos estudos específicos com maconha, a literatura mostra que tratamentos breves são tão eficazes quanto os mais longos com dependentes de álcool e outras drogas. Porém, vale termos em mente que tratamento breve é com tempo limitado (indicam para tratamentos de 6 e 9 sessões como mais efetivos que 1 ou 2 sessões) e que a duração do tratamento deve ser proporcional aos objetivos deste (se o objetivo é sensibilizar, uma sessão pode ser suficiente). Se a terapia é breve, ela deve ser administrada individualmente. Mais um fator que vai a favor da terapia individual é o fato de que com pacientes jovens, a influência grupal pode ser nociva e ao se tratar de usuários de maconha, geralmente falamos de jovens. Quanto ao conteúdo da terapia, a literatura é extensa no que se refere à comprovada eficácia de abordagens como a Entrevista Motivacional e Prevenção de Recaída, além da importância comprovada do aspecto "dar informação" sobre as drogas para os usuários das mesmas, que geralmente chegam com idéias distorcidas sobre os efeitos reais da droga, sejam eles positivos ou nocivos. A literatura mostra que, quanto mais especifico é o tratamento para determinada população, mais altos os índices de sucesso. Daí se justificar uma intervenção específica para usuários de maconha. Seria interessante investir em formar profissionais de base (enfermeiros, por exemplo) que disseminassem este tipo de trabalho e iniciassem um processo de sensibilização em pessoas com problemas de abuso de substâncias. Esse seria o primeiro passo para a indicação de profissionais especializados, tendo em vista que uma das maiores dificuldades de engajamento e efetividade de tratamentos para dependência seja a falta de motivação. Um último fator interessante é que os usuários de maconha têm uma tendência maior a diminuir o consumo do que parar completamente. Por um lado, comprova-se o fato de que, em estudos de efetividade de tratamento para uso de substâncias, a abstinência não deve ser o único critério de sucesso.

 

Terapia Farmacológica

Percebe-se que a evidência científica disponível atualmente não é sólida o bastante a fim de permitir a indicação de uma medicação efetiva capaz de atuar nos principais objetivos já citados para o tratamento medicamentoso de usuários de canabis. A pesquisa clínica da farmacoterapia para dependência de maconha permanece ainda na "sua infância". Algum potencial de utilidade parece existir entre os antidepressivos e os medicamentos ansiolíticos no tratamento da dependência desta droga. Porém, mais estudos controlados são necessários antes que qualquer conclusão ou recomendação possa ser feita. Agentes que visem os receptores canabinóides também podem mostrar-se úteis, mas novamente não foram explorados suficientemente.

Embora poucos estudos do tratamento para o abuso e a dependência de maconha tenham sido finalizados, os relatos iniciais sinalizam alguns tratamentos que podem ser promissores e demonstram a necessidade do desenvolvimento de mais pesquisas e busca de intervenções efetivas.

 

Maconha e Funções Cognitivas

A cognição se refere a habilidade de pensar. Os processos cognitivos incluem desde a percepção visual, auditiva e tátil de todos os elementos que noscercam, à atenção sustentada a determinada tarefa, à memória, julgamento, capacidade de resolver problemas e funções executivas (estabelecimento deobjetivos, capacidade de planejamento, iniciativa, controle dos impulsos, monitoramento, avaliação de riscos, conseqüências do comportamento e flexibilidade mental).Os problemas cognitivos são muito comuns nos indivíduos acometidos por lesões neurológicas, quer seja por trauma, doença vascular, infecciosa, dependendo dalocalização e da gravidade da lesão. De forma semelhante, a exposição do cérebro a agentes químicos neurotóxicos, como a maconha, também afeta o funcionamento cognitivo dos indivíduos.

O uso da maconha é muito difundido no Brasil e no mundo. Entretanto, pouco se sabe sobre as conseqüências deste problema em longo prazo. Embora os estudosmais antigos tenham sido inconclusivos, as pesquisas mais recentes têm demonstrado alterações no funcionamento cerebral e neuropsicológico dosusuários crônicos de maconha, mais especificamente em atenção, memória, aprendizagem, funções executivas, tomada de decisões, funcionamento intelectual e funções psicomotoras, mesmo após um mês de abstinência.

Problemas no funcionamento neuropsicológico, especialmente das funções executivas, mediadas pelas regiões pré-frontais do cérebro, podem influenciarnegativamente na motivação para o tratamento e aderência ao programa de recuperação, aumentando as chances de recaída. Apesar dos avanços alcançados, são necessárias mais pesquisas em neuropsicologia, que possam auxiliar na melhor compreensão das conseqüências deletérias do uso crônico da cannabis e suas repercussões no tratamento.

 

Maconha e efeitos na gravidez

Apesar do pequeno número de estudos que avaliam o efeito do consumo de maconha pela gestante no comportamento de seus filhos, de maneira geral, os recém-nascidos apresentam tremores e startles com maior freqüência, além de menor capacidade de habituação e orientação aos estímulos externos e alterações no padrão de sono. No entanto, esses achados não são uniformes e há controvérsia no que se refere ao uso de maconha pela gestante e os possíveis efeitos neurocomportamentais imediatos. Em prazos mais dilatados, os poucos estudos publicados têm mostrado resultados mais consistentes no que se refere a alterações sutis no desempenho de tarefas que dependem de funções corticais superiores, em crianças de até dez anos expostas intra-útero à maconha, indicando um possível sítio cerebral de ação específico da droga durante o período de crescimento e organização da arquitetura cerebral, na vida fetal.

Até o presente momento, os dados demonstram uma associação, mais do que uma relação de causa-efeito, entre o uso de drogas na gestação e a morbidade perinatal, devendo-se continuar as pesquisas, controlando-se as variáveis de confusão, tais como consumo de várias drogas de forma concomitante, para poder conhecer melhor os efeitos do uso da maconha na gestante, na evolução da gravidez e no concepto.

 

Genética e uso de maconha

Os estudos genético-epidemiológicos têm demonstrado que quadros de uso nocivo e de dependência à maconha apresentam um componente genético no seu desenvolvimento. Entretanto, algumas questões ainda precisam ser esclarecidas, tais como: se a vulnerabilidade genética é específica à maconha ou se é geral para às drogas de abuso como um todo; ou ainda se existe um componente genético específico que possa também estar associado (como fator de risco) para o aparecimento ou piora do prognóstico em outros transtornos psiquiátricos.

Os estudos genético-moleculares começaram a ser realizados, com o objetivo de melhor compreender a participação dos genes nesses processos. Porém, tais estudos são recentes e ainda em pequeno número, não dispondo de dados conclusivos até o momento. Com o enorme progresso na área da biologia molecular, a expectativa é de identificar os genes de vulnerabilidade para o abuso de maconha em um futuro próximo.

 

Revisão Científica – MACONHA E SAÚDE MENTAL – LISTA DE AUTORES

- Departamento de Dependência Química da ABP

- Epidemiologia do uso da maconha no Brasil – José Carlos Galduroz (UNIFESP) e João Carlos Dias (RJ)

- Tendências de uso da maconha no mundo – Marcelo Ribeiro Araújo (UNIFESP)

- Evidências da Síndrome de Dependência da Maconha – Ronaldo Laranjeira (UNIFESP) – Analice Giglioti (Santa Casa – RJ)

- Evidências da síndrome de abstinência da maconha – Ana Cecília Marques (UNIFESP) e Tadeu Lemos (UFSC)

- MACONHA E ADOLESCÊNCIA - Claudia M. Szobot (UFRGS), Luis Augusto Rohde (UFRGS)

- Impacto do uso da maconha da vida acadêmica de adolescentes – Sergio de Paula Ramos (Hospital Mãe de Deus – RS) Lisandra Soldati Fração

- O sistema canabideóide – José Alexandre Crippa (USP-RP) Fabrício Moreira (USP-RP)

- A ação da maconha no cérebro –Acioly Luiz Tavares de Lacerda (UNIFESP), José Alexandre de Souza Crippa (USP-RP), Rodrigo Affonseca Bressan (UNIFESP)

- Neuropsicologia do uso crônico da maconha – Paulo Cunha (USP)

- Existe uma psicose específica relacionada ao uso da maconha – Valentim Gentil (USP)

- Uso da maconha e as doenças psiquiátricas – Evidências epidemiológicas – Paulo Rossi (USP) – Lílian Rato (Santa Casa – SP)

- Uso de maconha e Depressão – Lisia von Diemen (UFRGS), Flavio Pechansky (UFRGS) e Felix Henrique Paim Kessler (UFRGS)

- Uso da maconha e Esquizofrenia – Rodrigo Bressan (UNIFESP)

- Uso de maconha e ansiedade – José Alexandre Crippa (USP-RP) Antonio Waldo Zuardi (USP-RP)

- Uso de maconha e TDAH – Marcos Romano (UNIFESP)

- Genética e uso de maconha – Homero Vallada (USP) Quirino Cordeiro (USP)

- Tratamento psicológico do uso da maconha – Flávia Jungerman (UNIFESP)

- Tratamento farmacológico do uso da maconha – Alessandra Dihel e Ronaldo Laranjeira (UNIFESP)

- Uso de maconha e gravidez – Ruth Guinsburg (UNIFESP) Marina Carvalho de Moraes Barros (UNIFESP)

- Dirigir e uso de Maconha – Ilana Pinsky (UNIFESP) e Marco Bessa (UNIFESP)

 

Especialistas discutem diretrizes em psiquiatria:

Considerado o maior encontro psiquiátrico da América Latina e um dos maiores do mundo, o XXIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria teve 5.373 inscritos sendo 80% deles médicos. Ele aconteceu na capital mineira, Belo Horizonte, entre os dias 12 e 15 de outubro, mais especificamente no Minas Centro.

"Diretrizes em Psiquiatria: nova clínica, novas instituições, novas intervenções", foi o tema escolhido para a edição de 2005, mas em torno dele, também foram realizadas diversas mesas-redondas, conferências, fóruns, workshops e simpósios-satélites. De acordo com o Dr. João Alberto Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e professor adjunto do Departamento de Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco houve muitas discussões sobre novas substâncias, novas políticas de saúde mental, sobre a interconsulta, a psiquiatria no hospital geral, os antidepressivos, formas de psicoterapia, enfim, as diversas formas de intervenção em psiquiatria foram abordadas.

Cerca de 13 convidados internacionais estiveram presentes no evento. "Eles geralmente são profissionais ligados à Associação Mundial de Psiquiatria ou à Associação Psiquiátrica da América Latina, sempre pesquisadores renomados e que a própria ABP tem muito interesse em trazer", conta o vice-presidente.

Ele destaca ainda que foram apresentadas novas substâncias com grande utilidade na psiquiatria, como novos antipsicóticos e antidepressivos, armas terapêuticas essenciais na recuperação dos pacientes psiquiátricos. Além disso, técnicas inovadoras de psicoterapia como as cognitivo-comportamentais, as de orientação psicodinâmica ou as orientações prévias estão entre a gama de intervenções que têm de fato mudado a qualidade da assistência psiquiátrica.

Alguns psiquiatras tiveram seus trabalhos premiados durante o congresso, entre eles o Dr. Ygor Arzeno Ferrão (RS), com "Características clínicas do transtorno obsessivo-compulsivo refratário aos tratamentos convencionais"; "Confiabilidade da versão em português do Inventário de Fobia Social (SPIN) entre adolescentes estudantes do município do Rio de Janeiro", da Dra. Liliane Maria Pereira Vilete (RJ); "Uso de bebidas alcoólicas em contextos culturalmente diferenciados: estudo de caso sobre o processo de alcoolização entre indígenas do Alto do Rio Negro, Brasil", do Dr. Maximiliano Loyola Ponte de Souza (AM) e o prêmio "Jovem Psiquiatra", concedido ao Dr. Barcielas Veras (RJ) com "Epidemiologia da Depressão na América Latina".

Para o Dr. Carvalho, um ponto alto do congresso foram as discussões em torno das políticas de saúde mental do País, das quais, segundo ele, "a ABP tem se posicionado firmemente e formalmente junto ao Ministério da Saúde", além da conquista do aumento do período da residência na especialidade, que passou de dois para três anos. "Essa foi uma vitória de grande importância, dada a complexidade da especialização", conclui ele.

 

Saúde: o médico em cheque ("up")

Já dizia o ditado: "casa de ferreiro, espeto de pau". O mesmo se aplica à medicina. De acordo com o Dr. João Carlos Dias, psiquiatra e diretor da ABP, uma grande parcela dos médicos não costuma freqüentar o consultório dos colegas, mas sim os corredores dos hospitais para resolver questões relacionadas à própria saúde, ou, pior do que isso, eles simplesmente se auto-medicam. A preocupação com a saúde dos médicos ganhou uma proporção tão grande, que ela foi tema de uma mesa-redonda durante o XXIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria.

Entretanto, um dos pontos-chave desse debate e que mais concerne aos especialistas é o abuso de substâncias químicas entre os médicos e estudantes de medicina. Atualmente a prática da medicina encontra diversas limitações e dificuldades, por causa da precariedade do sistema público e da desvalorização dos planos de saúde, e isso vai criando uma série de situações potencialmente sociogênicas, e isso se reflete no atendimento que o médico presta, e conseqüentemente o profissional passa por estresse e sofre frustrações. Além disso, não existe um programa específico no Brasil que lide com esse tipo de questões, isto é, um serviço de apoio psicológico aos médicos e de assistência àqueles dependentes de drogas.

O abuso de substâncias químicas entre a classe médica não difere da população geral, porém, explica o Dr. Dias, "sabemos que os fatores ambientais e as conseqüências são bastante diferentes". É preciso levar em conta também a responsabilidade do médico e o papel que ele desempenha dentro da sociedade, pois ele sempre foi tido como um exemplo e como um formador de opinião.

Existem alguns estudos localizados, porém muito pequenos, que mostram que o uso de drogas reflete-se nas faculdades de medicina, porém isso ocorre nos cursos superiores de uma maneira geral, portanto, os alunos de medicina não diferem muito dos outros estudantes como de direito, biologia etc. Entretanto, de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), existe uma tendência maior à utilização de substâncias no final do curso de medicina em relação ao início.

Segundo o Dr. Dias, isso pode ser reflexo do estresse do trabalho e das pressões, pois é a partir do quarto ano do curso que o aluno passa a freqüentar os hospitais e a ter contato com a realidade da profissão: "Eles percebem que ser médico não é aquele glamour, não há o status que todos imaginam, mas sim muito trabalho, cansaço e pouca remuneração".

Existe um estudo clássico realizado na Universidade de Washington (EUA), em que um pesquisador enviou um questionário sobre o consumo de bebidas alcoólicas para três mil calouros. Com isso, ele pôde mapear os riscos, antes de esses indivíduos ingressarem na universidade, e quando isso ocorria, eles já tinham um serviço de apoio ao vício. "Isso já ocorre em algumas universidades brasileiras como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a USP e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)", conta o diretor.

Outro item interessante que ele coloca é o ‘mito da divindade’: "O médico, de uma maneira geral, se considera imune a várias situações relacionadas à saúde e, curiosamente, muitas daquelas às quais ele aconselha contrariamente os seus pacientes". Aliado a essas questões, existe ainda o fácil acesso a inúmeros tipos de substâncias que são potencialmente causadoras de dependência.

Inicialmente, acreditava-se existir uma dificuldade por parte dos médicos que desenvolveram uma dependência em procurar por auxílio especializado. Entretanto, um projeto-piloto realizado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CRM / SP) em parceria com a Unifesp, aliado à experiência do Conselho Federal de Medicina (CFM), vem mostrando que isso não é verdade, pois muitas das vezes, há uma procura espontânea.

Na opinião do Dr. Dias, são necessárias algumas mudanças no Código de Ética Médica. Nos Estados Unidos, por exemplo, se um profissional souber que um colega está abusando de substâncias químicas e não relatar ao conselho, ele está cometendo um ilícito ético. "Somos todos médicos, portanto, estamos sujeitos ao ‘mito da divindade’ e corremos o risco de nos abstermos, mesmo que involuntariamente, da verdade."

O Brasil ainda está omisso em relação a essa regulamentação. Esse é um dos itens sobre o qual o CFM vai ter de se debruçar para oferecer uma facilidade maior à comunidade médica.

 

Abuso: identificando o problema

O Dr. Dias explica que, de uma maneira geral, existem alguns indicativos que desenham um estereótipo do médico ou estudante de medicina que sofre com o abuso de substâncias. Os mais comuns resumem-se ao desleixo na aparência, a barba por fazer, atrasos constantes que influem na confiabilidade do profissional e falta nos turnos. Além disso, acrescenta o médico, ele começa a tomar decisões relativas aos seus pacientes que podem ser prejudiciais; evita o encontro com os colegas, portanto deixa de freqüentar o refeitório, a sala dos médicos e passa muito tempo no vestiário ou no estacionamento; tem preferência sempre pelos plantões que ninguém quer, como os de fim de semana ou feriado, pois têm menos vigilância

Outro indício constante são as desculpas inventadas para o aumento do uso dos medicamentos, especialmente os anestésicos. "O dependente, quando questionado, costuma dizer que os frascos quebraram. Esse tipo de desculpa faz parte do mecanismo de defesa criado pela dependência", explica o diretor.

A maioria das pessoas que convivem com o dependente sabem do seu problema e até comentam entre si, porém entre os corredores, existe a ‘conspiração’ do silêncio, o que contribui com que ele continue sem solução.

São duas as especialidades cujos médicos têm maior propensão a desenvolver algum tipo de abuso: anestesia e psiquiatria, tanto que o Dr. Gastão Durval, representante da Sociedade Brasileira de Anestesia (SBA), está trabalhando concomitantemente com a ABP para auxiliar essa população de maior risco.

"Os anestesistas sempre trabalham sob muita pressão. Mesmo quando vão anestesiar um paciente que será submetido a um procedimento simples, como uma amidalectomia, existe a possibilidade de uma anafilaxia", lembra o Dr. Dias, constatando que o próprio centro cirúrgico caracteriza-se como um ambiente altamente estressante.

Já na psiquiatria existem situações extremamente complicadas, além da complexidade da mente humana. Os psiquiatras precisam lidar com o fracasso em algumas ocasiões, pois muitas vezes as doenças são de difícil cura ou mesmo controle. Além disso, os sintomas dos distúrbios psiquiátricos são variáveis e não detectáveis por exames laboratoriais, não é como um pneumologista que trata uma pneumonia, ou o infectologista que trata uma infecção; os psiquiatras não têm algo ‘palpável’.

O Brasil ainda não dispõe de um centro padrão para o tratamento de médicos dependentes assim como os Estados Unidos e o Canadá, que têm clínicas especializadas para eles, ou a Espanha, que os direciona para hospitais e serviços que atendem a população em geral, sem preocupação com o anonimato.

Para o diretor da ABP, os brasileiros ainda estão encontrando o seu modelo. Num primeiro momento, os indivíduos são encaminhados para a rede de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Porém, também estão em andamento alguns projetos-piloto nos quais cada Estado ou cidade terá um supervisor, com uma equipe especializada, que será um apoio ao CFM, não havendo a necessidade de os casos serem encaminhados diretamente a ele.

 

Maconha e saúde mental

O Departamento de Dependência Química da ABP, coordenado pelo Dr. Ronaldo Laranjeiras, produziu uma revisão científica sobre os efeitos psicoativos e comportamentais da maconha. Os resultados do estudo, que teve 16 autores, foram apresentados durante o congresso.

O objetivo de escrever essa revisão foi melhorar a qualidade das informações transmitidas aos profissionais especializados em saúde mental no Brasil, e por conseqüência, aos leigos, além de atingir um público maior que eventualmente possa se interessar pelo assunto. De acordo com o Dr. Laranjeira, o foco principal foi avaliar os efeitos da maconha no cérebro. "Evitamos o debate sobre a legalização dessa substância. Achamos que seria útil separar a questão da legalidade da referente à saúde. Enquanto profissionais da saúde mental, temos uma maior familiaridade com a metodologia e a ciência do comportamento e achamos que poderíamos contribuir nessa nossa área de especialização", diz ele.

O uso de cannabis está associado a riscos elevados de transtornos pelo uso de outras substâncias e a diferentes comorbidades psiquiátricas na população geral. As associações mais importantes entre o uso da maconha e os problemas de saúde mental aparecem quando há uma combinação de fatores individuais constitucionais e efeitos da droga.

Segundo o Dr. Laranjeira, há uma associação consistente entre o uso da droga e o primeiro surto psicótico em indivíduos mais jovens. "O consumo de cannabis aumenta o risco de incidência de esquizofrenia em indivíduos com e sem outros fatores predisponentes e leva a um pior prognóstico para aqueles com clara vulnerabilidade para um transtorno psicótico." Há poucas evidências de associação entre o uso infrequente e diagnóstico de depressão. Já o consumo pesado e a depressão parecem estar associados, sendo sugestivo de que ele pode aumentar os sintomas depressivos em alguns usuários.

Vários estudos examinaram a relação entre o uso da maconha e a esquizofrenia a partir de evidências recentes provindas de estudos clínicos e epidemiológicos. Estudos clínicos monitorando portadores de esquizofrenia demonstram uma relação entre o consumo de maconha e a exacerbação dos sintomas psicóticos, pior resposta à medicação antipsicótica e curso clínico ruim da doença (mais hospitalizações, mais recaídas e pior aderência ao tratamento). Quatro grandes estudos prospectivos em três países encontraram uma associação entre o consumo de maconha e o risco de desenvolver esquizofrenia ou sintomas psicóticos. Essa associação, diz o médico, "é mais intensa em sujeitos que consumiram a droga antes dos 15 anos de idade e com história de sintomas psicóticos. Em conjunto, os achados sugerem que ela pode precipitar um quadro de esquizofrenia em indivíduos vulneráveis e exacerbar quadros psicóticos em portadores de esquizofrenia".

O relato de ansiedade constitui o sintoma adverso mais comum após o uso agudo da maconha, e os sintomas ou transtornos de ansiedade co-ocorrem muito freqüentemente entre os usuários da droga. Contudo, interrompe o Dr. Laranjeira, paradoxalmente, alguns indivíduos relatam a redução de ansiedade como motivação para o uso da maconha. Essas constatações conflitantes poderiam ser explicadas através da observação de que os efeitos do principal constituinte ativo da cannabis (?9-THC) sobre a ansiedade parece ser dose-dependente, com baixas doses demonstrando propriedades ansiolíticos e doses mais altas sendo ansiogênicas. Além disso, os outros canabinóides presentes na planta influem em sua atividade e um deles, o canabidiol, apresenta propriedades ansiolíticos.

Quando questionado a respeito de substâncias capazes de constituir um tratamento eficaz contra o vício em maconha, o médico responde que a evidência científica disponível atualmente não é sólida o bastante para permitir a indicação de uma medicação efetiva, isto é, que seja realmente capaz de atuar nos usuários da droga. A pesquisa clínica da farmacoterapia para dependência de maconha ainda está ‘engatinhando’. Algum potencial de utilidade parece existir entre os antidepressivos e os medicamentos ansiolíticos no tratamento da dependência dessa droga, porém, mais estudos controlados são necessários antes que qualquer conclusão ou recomendação possa ser feita. Agentes que visem os receptores canabinóides também podem mostrar-se úteis, mas novamente não foram explorados suficientemente.

Nota ACCA: a Revisão Científica, citada no texto acima, foi publicada no Boletim ACCA N. 27 (parte 1) e neste boletim a continuação (parte 2).