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PESQUISA MOSTRA EFEITOS NOCIVOS DA MACONHA

Pesquisa mostra efeitos nocivos da maconha

Dr. David Fergusson participou do XVII Congresso da Abead, em Minas Gerais, onde apresentou dados da pesquisa mais ampla já realizada sobre maconha

Uma das principais atrações do XVII Congresso da Aebad foi a presença do pesquisador David Fergusson, que coordenou a maior pesquisa já realizada sobre maconha no mundo. As novidades trazidas pelo pesquisador neozelandês derrubam o mito da “droga inocente”. Segundo Fergusson, mesmo com um nível de dependência baixo (9%), a maconha é perigosa por servir como “porta de entrada” para outras drogas. E sua pesquisa comprova o que diz.
Confira a seguir a entrevista que o pesquisador concedeu à Abead:

Quais as suas impressões sobre o congresso da Abead de 2005 e sobre as pesquisas brasileiras?
Eu gostei muito do tempo que passei no congresso da Abead e gostaria de agradecer os organizadores pela hospitalidade, pelo pensamento desafiador do programa científico e as programações de entretenimento após a conferência. Eu também gostei de Ouro Preto. Suas construções, ruas e história são fascinantes.

O senhor coordenou a pesquisa mais importante sobre uso de maconha no mundo. Como o seu estudo colabora na discussão em torno de sua legalização?
Nos últimos anos, nós realizamos vários estudos destinados a avaliar os riscos à saúde decorrentes do uso da maconha. Vamos publicar brevemente um novo estudo sobre os efeitos efeitos de porta de entrada da maconha que será divulgado em março de 2006.
Os achados de nossos estudos sugerem claramente que a maconha pode apresentar vários efeitos nocivos, tais como: risco aumentado para sintomas psicóticos, maior risco de uso de outras drogas, risco aumentado para outros transtornos mentais, efeitos no sistema respiratório e conseqüências na gravidez. A maconha compartilha muitos dos efeitos nocivos causados pelo álcool e pelo cigarro, mas é provavelmente menos nociva que estas drogas que são frequentemente  utilizadas. A questão levantada por esta evidência diz respeito às abordagens legais e de saúde pública que devem ser adotadas em relação á maconha. Nós temos avaliado algumas destas questões em nossa amostra na Nova Zelândia onde o uso de maconha é ilegal. Essa análise não ampara a visão de que a proibição do uso de maconha é eficiente. Nós vemos que as leis sobre maconha na Nova Zelândia foram ineficientes uma vez que a prisão e a condenação por uso de maconha não dissuadiu ao uso futuro e finalmente as leis mostraram-se preconceituosas já que os homens, os Maoris (povo indígena neozelandês) e pessoas com antecedentes criminais têm mais probabilidade de serem presas por uso de maconha.
Minha defesa nessa área tem sido por experimentos sociais de ‘despenalização’ e descriminalização gradual do uso da maconha, com os resultados da mudança de legislação sendo avaliados e usados para desenvolver novas políticas. Essa idéia não tem sido efetiva na Nova Zelândia porque os acordos políticos entre o atual governo e os parceiros de sua coalizão preferem não mudar as leis sobre a maconha. De qualquer maneira, acredito que em todo o mundo cresce a percepção de dois fatos:

  1. O uso de maconha pode ter efeitos nocivos à saúde
  2. A proibição do uso da maconha pode não ser a melhor maneira de lidar com esses problemas

Algumas pessoas que discutem legalização dizem que a maconha é inofensiva. O que o senhor pode dizer sobre isso, após 10 anos de estudo?
Hoje é muito claro que a maconha não é uma droga inofensiva. Existem muitas evidências de que o uso de maconha, e especialmente o uso pesado, pode ser associado a um conjunto de efeitos colaterais, incluindo efeito no peso de recém-nascidos, prejuízo no sistema respiratório, crescimento do índice de sintomas psicóticos, uso de outras drogas e crescimento do risco de transtornos psicossociais em adolescentes. Apesar do uso de maconha em doses baixas ser menos perigoso que o álcool ou o cigarro, é enganoso e falso reivindicar que a maconha é uma droga inofensiva. O desafio das políticas de drogas no século 21 é desenvolver uma avaliação realista dos riscos da maconha e desenvolver um consenso sobre as políticas sociais e de saúde mais eficientes para reduzir esses riscos.

O senhor acredita que teria resultados parecidos realizando a mesma pesquisa em outros países? Questões culturais influenciam em quanto no uso de drogas?
Estou certo de que muitos dos resultados obtidos na Nova Zelândia são aplicáveis a outras sociedades. Por exemplo, não há uma boa razão para crer que os efeitos da maconha no sistema respiratório ou no aparecimento de sintomas psicóticos possam ser diferentes no Brasil. Dito isto, também é importante dizer que pode haver importantes diferenças culturais que devem ser levadas em conta. O mais notável é que há uma variação mundial nos níveis de THC e a potência da maconha, então a droga produzida em um país pode ser muito diferente da produzida em outro. Além disso, o contexto social pode influenciar o modo como a maconha é usada. Assim, enquanto os efeitos da maconha podem ser parecidos em diferentes contextos sociais, essas similaridades podem ser modificadas por fatores sociais.
Por essas razões, é importante que sociedades como o Brasil conduzam suas próprias pesquisas para examinar a extensão em que cada descoberta de pesquisas internacionais aplica-se ao país, e para estender a aplicação dessas descobertas no contexto brasileiro. Isto, com certeza, é uma das mais importantes funções de sociedades científicas como a ABEAD.

Como a maconha se relaciona as outras drogas?
Estou fortemente convencido de que a maconha serve como porta de entrada, no sentido de que o seu uso faz crescer a probabilidade de que o indivíduo use outras drogas ilícitas. A evidência para esta afirmação está num artigo que ainda será publicado. Ele mostra que mesmo após controle extensivo de fatores externos, o uso de maconha é associado com o crescimento do uso de outras drogas ilícitas, principalmente entre usuários adolescentes. Acredito que a discussão importante agora é para entender os mecanismos subjacentes que colocam os usuários de maconha em risco crescente de uso de outras drogas.

Quais são os resultados de seus estudos com relação à dependência?
Nossos resultados sugerem que aos 21 anos de idade, pouco mais de 10% de nossa coorte preenche os critérios do DSM-IV para dependência de maconha. Os que desenvolveram a dependência eram na maioria homens, Maori e tinham, na infância, um histórico de transtornos de conduta e problemas relacionados.

Em sua opinião, qual política é mais eficiente para prevenção do abuso de drogas entre os jovens?
Eu creio que não tenho a resposta a esta questão – se tivesse seria um homem rico e satisfeito-. De qualquer maneira, eu tenho convicção que o caminho para encontrarmos a resposta é através de métodos baseados em evidências e experimentos sociais. Por enquanto, as políticas relacionadas às drogas são baseadas em fortes reivindicações que são fracamente apoiadas por evidências científicas. Precisamos de mais ceticismo sobre reivindicações políticas nessa área e um comprometimento mais forte com a ciência de boa qualidade como meios de discutir essas questões.

Quais são as principais conseqüências sociais do uso da maconha?                 
Eu creio que esta é uma questão muito difícil de ser respondida. Enquanto é claro que os usuários de maconha estão expostos a uma série de efeitos nocivos, é também o caso em que usuários ocasionais têm mínimos efeitos nocivos. Além disso, a questão dos danos sociais depende criticamente da parcela da população que faz uso pesado, regular, ou abusivo. Quando essa fração aumenta, os danos sociais da droga provavelmente também crescem.

O que o senhor acha que aconteceria se a maconha fosse legalizada? Haveria uma explosão de consumo?
Eu tenho ouvido algumas vezes que o uso de maconha deveria ser legalizado. De qualquer maneira, eu não acredito que aqueles que defendem a legalização sabem as implicações de suas sugestões. Numa sociedade como a Nova Zelândia, a legislação sobre a maconha poderia ter regulamentação de venda e estoque semelhante ao álcool e ao cigarro. Isto demandaria leis que controlassem a qualidade do produto, quem poderia produzir, quem poderia vender e para quem. E, obviamente, o governo iria querer um retorno em impostos.
Assim, o aparentemente simples ato de legalizar a maconha implicaria em um grande número de leis para regular sua produção e estoque. Eu tenho a impressão que aqueles que defendem a legalização acreditam que ela criaria o direito de cultivar maconha em seu jardim, da mesma maneira que alguém pode cultivar salsa ou cebola. É uma visão muito egocêntrica.
Meu sentimento é que se o uso de maconha for legalizado, isso poderia levar a um crescimento substancial do seu uso, particularmente entre os jovens. Não há razão para acreditar que a legalização poderia levar a uma redução do uso, mas poderia levar para um melhor reconhecimento e controle dos efeitos nocivos, pois os produtores teriam que demonstrar que seu produto é seguro, e se responsabilizar por seus efeitos nocivos.