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JOVENS E ADOLESCENTES EM BUSCA DAS DROGAS

ROBERTA DE OLIVEIRA SILVA

 

 

JOVENS E ADOLESCENTES EM BUSCA DAS DROGAS

 

Trabalho da Cadeira de Prática Supervisionada de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem

Faculdade de Psicologia

 

 

 

 

 

 

 

Orientadora: Gisele Monza da Silveira

 

 

 

 

Porto Alegre

2002

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

INTRODUÇÃO...........................................................................................................04

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA..............................................................................05

    1. Por que as pessoas usam drogas..............................................................05
    2. O processo adolescente............................................................................12
    3. O jovem adulto...........................................................................................15
    4. O adolescente e as drogas........................................................................17
    5. Conceitos básicos......................................................................................21
    6. Personalidade e toxicomania.....................................................................25
    7. Droga.........................................................................................................29
    8. 1.7.1 Canabinóis........................................................................................31

      1.7.2 Álcool................................................................................................32

      1.7.3 Estimulantes.....................................................................................34

      1.7.4 Alucinógenos....................................................................................36

      1.7.5 Colas, solventes e aerossóis...........................................................37

      1.7.6 Tabaco.............................................................................................38

    9. Algumas reflexões que Winnicott definiu como "A capacidade de estar só" e sua relação com o uso de drogas...........................................................40
    10. O ponto de vista psicanalítico...................................................................42
    11. Teoria do Espelho de Jacques Lacan...................................................46

2 PROBLEMA DE INVESTIGAÇÃO.........................................................................48

3 MÉTODO.................................................................................................................49

3.1 Método.......................................................................................................49

3.2 Participantes..............................................................................................49

3.3 Procedimentos para a coleta de dados.....................................................50

3.4 Procedimentos para a análise dos dados..................................................50

4 RESULTADOS........................................................................................................51

5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS.........................................................................55

CONCLUSÃO............................................................................................................63

OBRAS CONSULTADAS..........................................................................................65

APÊNDICE.................................................................................................................68

ANEXO.....................................................................................................................103

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

Dentre tantos assuntos possíveis a serem abordados, escolhi o tema das drogas na adolescência por ser um tema cada vez mais discutido, seja pelos adolescentes, seja pelos pais, seja por pesquisadores. Por me encontrar ainda na adolescência, presencio de perto esta relação dos adolescentes com as drogas, seja com amigos, seja através de revistas e outros. Acredito que este seja um tema bastante instigante, sobre o qual tenho enorme curiosidade de me inteirar a respeito, também, dos aspectos psicológicos que levam o adolescente em busca das drogas, seja por influência de amigos ou por mera curiosidade ou qualquer outra razão que o possa levar em busca de um recuso diferente do qual estava habituado, as drogas.

Tenho como objetivo deste trabalho, verificar, dentro da percepção do próprio adolescente, o que o leva em busca das drogas; verificar que processos psicológicos, que fase da maturação do adolescente pode estar relacionada ao fato deste ir em busca das drogas; verificar se são fatores externos, como por exemplo, a influência dos amigos, por curiosidade, pela situação em que o adolescente se encontra, ou fatores internos, como alguma dificuldade de relacionamentos, problemas de família, etc.

 

 

 

 

 

 

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

 

1.1 POR QUE AS PESSOAS USAM DROGAS

 

 

 

 

Sabe-se que o uso de drogas para alterar a consciência não é nada novo. As drogas se fazem presentes na vida do homem em todas as eras da história. Para uso particular e cotidiano, sempre houveram drogas ou intoxicantes químicos. Todos os sedativos e narcóticos vegetais, todos os euforizantes que dão em árvores, os alucinógenos que amadurecem nas frutinhas silvestres ou podem ser espremidos das raízes – todos sem exceção, foram conhecidos e sistematicamente usados pelos seres humanos desde tempos imemoriais, segundo Huxley (apud Weil, 1986, p. 28) O álcool sempre foi a droga mais comumente usada, pois não se faz necessário muito tempo para perceber os efeitos deste, que produz variações da consciência ordinária (WEIL, 1986).

Desde os tempos primitivos os homens sempre procuraram um atalho para a felicidade, buscando nos reinos da farmácia um meio de conseguir a desejada condição por um processo não mais difícil do que engolir uma pílula (ROPP, 1976).

O recurso às drogas, inicialmente de cunho religioso ou médico, disseminou-se com o homem nas suas migrações, marginalizando-se e tornando-se culturalmente aceitável. As drogas, de alguma forma, também sempre estiveram presentes nas guerras, seja como prescritas: analgésicos opióides, incluindo a morfina, estimulantes como as anfetaminas; seja como não prescritas: maconha, alucinógenos, cocaína e heroína, entre outras. A palavra "assassino", segundo Ferreira (1998), deriva de "haxixe", droga usada por uma seita árabe do século IX d.C., antes do ataque a seus inimigos.

Numa perspectiva histórica, podemos dizer que a droga tornou-se um problema de saúde pública a partir da metade do século XIX. Mas com o progresso da química industrial, da farmacologia e da medicina, deram-lhe sua dimensão moderna. Ambas as guerras mundiais vieram sucedidas por uma onda de consumo de drogas pesadas pelos adultos sem, contudo, constituir um problema social. Na década de cinqüenta, o consumo de drogas estava relacionado a subculturas, à marginalidade. Após os anos 60, a droga atinge uma população cada vez mais jovem, num movimento de crítica a todo sistema ocidental de valores (J. BERGERET, 1991). O consumo abusivo estendeu-se pelos países do Primeiro Mundo, como Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e Itália, dentre outros, e também entre os grupos intelectuais de outros países, como ocorreu em alguns de nosso continente, para, posteriormente, difundir-se por todo o globo terrestre, sem distinção de classes, idades, sexo, ideologia, política ou religião. Surgem vários movimentos de massa como o da contracultura, a guerra do Vietnã, que demonstraram a decadência dos valores da sociedade norte-americana. Aumenta o consumo de drogas entre os consumidores de classe média e alta, que a usavam não somente pelas experiências transcedentais, mas como uma forma de se oporem à sociedade tradicional.

Na década de setenta, passou-se a atribuir a não participação dos jovens ao "American Way of Life") com o uso, principalmente, da maconha. A droga era vista como um inimigo interno do estilo de vida americana. A heroína passa a ser utilizada em larga escala pelos jovens e, é no final desta década, que a cocaína entra nos Estados Unidos, surgindo o esteriótipo da cocaína.

Existem as mais diversas teorias a respeito das drogas, do que leva o homem a buscá-la. Para Weil (1986), as drogas representam um apetite humano básico, uma característica biológica da espécie. Ele nos explica isso, nos dando o exemplo de crianças pequenas ou em idade de crescimento têm diversas experiências com estados mentais, usualmente no sentido de perder a consciência de vigília, assim como a zona de transição entre a vigília e o sono. Outro tipo de experiência que as crianças descobrem, é através da inalação, mesmo que seja sem a sua intenção, de produtos domésticos de limpeza.

Segundo Bergeret (1991), desde cedo as crianças aprendem que, se procurarem alterar a consciência, seja de qual forma for, estas estarão seguindo um padrão anti-social. E assim, o impulso de alterar a consciência torna-se algo proibido, tornando-se algo muito íntimo, assim como a masturbação. Através desta questão cultural que muitas crianças ficam com medo destas experiências da consciência não ordinária evitando com que isto aconteça novamente, não admitindo sua ocorrência. Este contexto social, muitas vezes leva ao medo e à culpa quanto ao desejo de períodos de consciência alterada. Mas estas experiências de consciência não ordinária permanecem na adolescência e na vida adulta, embora suas lembranças a respeito destas possam diminuir ou permanecerem reprimidas no inconsciente. Estas, também apresentam gradações de estados que todos nós experimentamos.

A questão é que nos dias de hoje, algumas pessoas acreditam que as drogas sejam um mal contemporâneo, dos dias de hoje. Mas o que realmente está acontecendo é uma mudança na preferência das drogas, ou seja, a cada dia descobrem uma nova droga, ou uma nova composição de uma determinada droga, que causa algum tipo diferente de reação. As pessoas mais jovens, em razão de estarem passando por momentos conflitivos da própria idade, estão preferindo as drogas ilegais, assim como a maconha e os alucinógenos, como o ecstase, ao invés do álcool. Mas, em primeiro lugar, não podemos nos esquecer de que o álcool, esta bebida que serve como estimulante, como algo para "matar a sede", ou como um "acompanhamento indispensável à boa comida" e etc., é uma droga, e causa alterações significativas nas funções nervosas, com efeitos físicos a longo prazo, segundo J. Bergeret (1991).

De acordo com Weil (1986), não podemos negar o fato da universalidade do consumo de drogas pelos seres humanos. Mas para que possamos fazer uma análise válida a respeito das drogas, devemos suspender nossos julgamentos de valor sobre a natureza das drogas e admitir, por mais doloroso que possa ser, que o copo de cerveja numa tarde quente e a garrafa de vinho com uma bela refeição não são essencialmente diferentes do cigarro de maconha ou de cheirar uma "carreirinha" de cocaína.

Que a humanidade como um todo algum dia dispense os Paraísos Artificiais, parece pouco provável. A maioria dos homens e mulheres levam vidas tão dolorosas, na pior das hipóteses, e tão monótonas, pobres e limitadas, na melhor das hipóteses, que o impulso de escapar, o anseio de transcender a si mesmos, mesmo que por uns poucos momentos, é e sempre foi um dos principais apetites da alma (WEIL, 1986, p.33).

 

Weil (1986) nos diz que o desejo de alterar a consciência periodicamente é um impulso inato e normal, assim como a fome ou o impulso sexual. Mas ele ressalta o fato de que para se possa alterar a consciência não precisa ser por meio de agentes químicos, mas eles são "simplesmente um meio de satisfazer este impulso". As substâncias químicas são como uma "porta para o reino encantado". Para o homem, existe sempre a necessidade de satisfazer o impulso interior, pois como se sabe, o homem é um ser que está sempre em busca de algo mais, nunca estando satisfeito apenas com o que tem. Com a necessidade de aliviar a tensão sexual, o impulso de suspender a consciência ordinária surge espontaneamente de dentro, chega a um máximo, encontra alívio e se dissipa. O prazer, portanto, surge do alívio de uma tensão acumulada, ou seja, é auto- justificável. Ou seja, tanto a satisfação sexual como a experiência de suspensão da consciência ordinária dão satisfação; satisfazem uma necessidade interior.

Devo aqui, fazer uma esclarecimento com relação ao que me refiro quando falo em consciência alterada: é quando se perde a noção do que é "bom", do que é "saudável" ou "válido". Cito como exemplo destes estados o dormir e o sonhar, a hipnose, a anestesia geral, a meditação, o delírio, etc. A sensação de atemporalidade, muitas vezes mencionadas pelos usuários de drogas é muito comum na meditação ou no transe, por exemplo.

Os estados alterados da consciência, como na meditação, na hipnose e no transe, têm um grande potencial para um desenvolvimento extremamente positivo, tanto que nos dias atuais, a cultura budista, assim como a prática do yoga, está se tornando cada vez mais presente. Eles parecem ser uma caminho para o uso mais completo e eficiente do sistema nervoso, para desenvolver capacidades intelectuais e criativas. E, portanto, há uma certa lógica em dizermos que nascemos com um impulso para experimentar outras maneiras de sentir nossas percepções, especialmente, para afastarmo-nos da consciência ordinária, centrada no ego, conforme Silva (1991). Dormir e sonhar acordado também são exemplos de estados alterados da consciência, assim como são o transe, a hipnose, a meditação, a anestesia geral, o delírio, a psicose, o arrebatamento místico e as diversas "viagens" químicas (WEIL, 1986).

Os seres humanos são sempre desejantes, gulosos, impacientes, em busca do bem-estar. A natureza do desejo é insaciável, o desejo de sexo, de bebida, de comida, de dinheiro. É uma questão da natureza, é inato. Vamos em busca de uma plenitude, mas no entanto, continuamos vazios, nunca satisfeitos.

Assim, o uso de drogas ilegais nada mais é que uma continuação lógica de uma seqüência de desenvolvimento que remonta a primeira infância, não podendo ser considerado como um fenômeno único da adolescência ou de qualquer classe social ou econômica, de acordo com Weil (1986).

Outra questão que também influencia a busca das drogas, é a questão cultural que temos com relação à maioridade. Pois aos dezoito anos é concedida a autorização ao adolescente para que este possa beber álcool. Ou seja, é permitido ao jovem adulto que este utilize uma droga, somente pelo fato desta ser legal, assim como o cigarro, que também trás malefícios tão qual ou maiores do que certas drogas.

Os jovens de hoje descobriram uma variedade de outras substâncias químicas, preferidas ao invés do álcool.

Ao analisarmos um drogadito, devemos levar em consideração duas variáveis: o set, que se refere as expectativas da pessoa com relação a droga, ao que ela pode lhe causar, considerando o contexto de toda a personalidade da pessoa; e o setting, que é o ambiente físico e social no qual a droga é tomada. Sem considerá-las, não conseguiremos o porque das drogas variarem tão imprevisivelmente em seus efeitos psíquicos de uma pessoa para outra e de tempos em tempos numa mesma pessoa, conforme Weil (1986).

Os homens não são iguais diante da droga. Entre os jovens que utilizam a droga pela primeira vez, alguns voltam a usá-la, outros não. Existem razões tanto conscientes quanto inconscientes que levam uma pessoa a consumir pela primeira vez a droga e a continuar com a intoxicação. Os indivíduos têm, habitualmente, a curiosidade, o desejo de se conhecer, a tração pelo desconhecido, a tentativa de tentar ultrapassar as coordenadas do tempo e do espaço, em busca de prazer, com o desejo de enriquecer a experiência, visando a busca de uma expansão da consciência e de um estado de êxtase, a adesão a um determinado grupo, a recusa da sociedade e a rejeição do sistema de valores, uma vida familiar conflituosa, o anonimato. Mas além destas motivações expressas, existem as inconscientes. Existem personalidades predispostas que, ao encontrarem as drogas, se tornam verdadeiros toxicomaníacos, à primeira vista. De acordo com Bergeret (1991), "tudo acontece como se fosse a sugestionabilidade de uma personalidade influenciável que levasse o indivíduo à farmacodependência".

É importante ressaltar que todas as substâncias psicoativas causam intoxicação, todas induzem dependência psicológica e todas são auto- administradas por um indivíduo para alterar seu nível de consciência ou aumentar seu conforto psicológico. Cada classe de drogas possui seus riscos, com os padrões de problemas diferindo entre as classes medicamentosas.

Enfim, existem três classes de argumentos contra as drogas: médicos, psicológicos e práticos. Os argumentos médicos foram propostos por médicos e disseminados pela polícia e agentes do governo : em essência, dizem que as drogas podem causar um mal físico. Estes argumentos costumam divergir grandemente dos fatos. Em geral, as drogas ilegais que estão ganhando popularidade não são medicamente perigosas, pelo menos em comparação com outras drogas de uso disseminado, como por exemplo, o álcool (WEIL, 1986).

Com relação aos argumentos psicológicos, parecem ser mais convincentes. Foram feitas poucas tentativas de refutá-los, e todos sabemos dos danos psicológicos que parecem resultados do uso de drogas. Existe sempre um risco de um desastre psicológico agudo (como a psicose tóxica, que é mais rara, ou uma reação de pânico), e problemas colocados pela tolerância (WEIL, 1986).

Qualquer nova experiência tema a capacidade de mudar uma pessoa acarreta um certo risco à estabilidade psicológica. O risco de um desastre é pequeno, mas real, e é igualmente válido quanto ir para a faculdade, ou experimentar o sexo, ou começar uma psicanálise.

Observa-se que nos estados alterados de consciência freqüentemente ganha-se a capacidade de interpretar as próprias percepções de uma nova maneira, e que esta capacidade parece ser a chave da liberdade em relação à servidão dos sentidos. Por exemplo, a anestesia hipnótica nada mais é do que uma outra maneira de perceber a dor. O paciente, totalmente consciente mas num estado de consciência focalizada, aprende o "truque" de separar a dor de sua reação a ela.. Assim, ele fica livre para perceber a dor de uma nova maneira- algo está acontecendo "lá fora" mas não está machucando (WEIL, 1986).

É importante ressaltarmos o fato de que a decisão de usar drogas ou não sempre será uma decisão pessoal, independentemente de pressões sociais. Deve ser uma decisão consciente, feita com base em toda a informação disponível.

 

 

 

 

1.2 O PROCESSO ADOLESCENTE

 

 

A adolescência é a etapa da separação do grupo familiar, onde ele se afasta dos objetos de amor infantis, os pais e, consequentemente, há um aumento do narcisismo. Os pais passam a ser subvalorizados, como se aqueles ídolos que eram na infância viessem por "água abaixo". Isto acaba resultando numa variedade de estados do ego. Os apegos e as identificações superficiais se modificam constantemente. O adolescente se torna rebelde, desafiando as regras e a autoridade dos pais. A vida de fantasia e criatividade estão em seu auge. Os amigos passam a ser hipervalorizados, em função da decepção obtida pelos pais, de acordo com Blos (1998).

Adolescer, conforme Netto (1974) é a palavra latina que significa crescer, desenvolver-se, tornar-se jovem. Segundo este autor é possível, a partir de diferentes critérios definir a adolescência:

  • critério cronológico: a adolescência é um período da vida humana que se estende dos 10 aos 21 anos;

  • Critério do desenvolvimento físico: período de transição durante o qual o jovem se torna adulto;

  • Critério sociológico: período da vida de uma pessoa durante o qual a sociedade em que vive deixa de encará-lo como criança e não lhe confere os status, papéis e funções de adulto;

  • Critério psicológico: período de extensa reorganização da personalidade que resulta de mudanças no status bio- social entre infância e idade adulta.

O início da adolescência define- se em termos fisiológicos e sua duração e término em termos psicológicos. Fisiologicamente, começa no momento da puberdade, assim, que o indivíduo se torna apto para reproduzir a espécie. Psicologicamente e cronologicamente, chega ao fim quando o indivíduo atinge certo grau de maturidade em quase todos os aspectos (NETTO, 1974).

O processo adolescente, segundo Outeiral (apud FERREIRA, 1998), caracteriza-se por momentos progressivos e regressivos, que ocorrem concomitantemente. Os mecanismos de defesa do ego que operavam adequadamente durante a latência, sob o impacto da atividade instintiva intensificada pela puberdade, se desintegram parcialmente.

Neste momento, há uma tendência a uma maturação mais rápida e a desintegração dos mecanismos de defesa anteriores do ego não são situações opostas: em realidade, a desintegração facilita a maturação. Há também neste momento, o que Ana Freud (apud FERREIRA, 1998), denomina de "uma porosidade – consciente inconsciente" que possibilita a emergência de impulsos e fantasias que atingem o ego e produzem ansiedades persecutórias, depressivas e confunsionais.

Para Knobel (apud FERREIRA, 1998) o adolescente atravessa desequilíbrios e instabilidades extremas, apresentando momentos de elação, ensimesmamento, audácia e timidez, descoordenação, urgência, desinteresse e apatia que se sucedem ou são concomitantes com conflitos afetivos, crises religiosas, intelectualizações, ascetismo, condutas sexuais dirigidas ao heteroerotismo e até mesmo uma homossexualidade ocasional. Na adolescência, são consideradas normais as muitas das alterações desta etapa, assim como um certo grau de conduta psicopática.

O pensamento adolescente está vinculado a um processo de luto:

  1. Luto pelo corpo infantil

2. Luto pela identidade e pelo papel infantil

3. Luto pelos pais da infância

A estes lutos, se agrega o luto pela bissexualidade infantil perdida e pelas relações endogâmicas (vinculadas à reedição edípica da adolescência). Ocorre então, neste momento evolutivo, um "curto circuito" no pensamento, com a exclusão do esquema conceitual lógico e com a expressão de impulsos e fantasias através da ação. Há uma concretização defensiva do pensamento e um incremento do acting- out (OUTEIRAL, 1998).

O luto pelo corpo infantil perdido, obriga a uma expressão na ação motora direta. O luto pela identidade e pelo papel infantil permite a atuação afetiva sem apreensão, passional ou cheia de indiferença, sem consideração alguma pelos objetos. O luto pelos pais da infância produz uma distorção da percepção que produz respostas imediatas, globais e emocionais. Esta situação produz também uma confusão sexual e da noção do tempo, que caracterizam o pensamento do adolescente ( OUTEIRAL, 1998).

A droga outorga-lhes um suporte: lhes dá ingresso em uma nova comunidade, na qual aparentemente funciona a comunicação e, ao mesmo tempo, lhe oferece uma forma de contestar, apelando a uma das poucas proibições que ainda subsistem. A curiosidade é um dos móveis que levam os jovens a consumir drogas. Saber como é isso sobre o qual tanto falam...O adolescente que experimenta se sentirá bem ou ligeiramente mal, dará por conhecido e nada mais. Ou reincidirá, para neutralizar sua debilidade. Depende do que traga consigo em termos de história individual (KALINA, 1988. p.67).

 

 

 

 

1.3 O JOVEM ADULTO

 

O início da idade adulta é um período de "poder fazer". A maioria das pessoas nessa idade fica sozinha pela primeira vez, montando e administrando casas e colocando-se à prova na faculdade ou no trabalho. Todos os dias elas testam e ampliam suas habilidades físicas e cognitivas. Elas encontram o "mundo real" e resolvem ou contornam os problemas da vida diária. Elas tomam decisões que as ajudam a determinar sua saúde, sai carreira e o tipo de pessoa que desejam ser (PAPALIA, 2000).

Os jovens adultos geralmente estão no auge de sua força, energia e resistência. Em meados dos 20 anos de idade, a maioria das funções corporais está plenamente desenvolvida. A maioria dos sentidos está mais apurada durante o início da idade adulta. Os primeiros anos da idade adulta são muitas vezes uma época de descoberta de si mesmo. Para os jovens na transição da adolescência para a idade adulta, a exposição a um novo ambiente educacional ou de trabalho, às vezes longe de sua casa de infância, oferece a chance de questionar suposições há muito mantidas (PAPALIA, 2000).

Conforme McGoldrick (1995) a fase de adulto jovem é um marco. É o momento de estabelecer objetivos de vida pessoais e se tornar um "Eu".

Segundo Wendling (2002, p.19) "tornar-se adulto jovem é uma questão desenvolvimental relevante, na qual os indivíduos irão tomar as decisões mais importantes de suas vidas, como também passarão a contribuir social e profissionalmente para a sociedade".

Independentemente de estar morando com os pais ou não, cabe ao indivíduo, na adultez jovem, desenvolver sua capacidade de diferenciação, a fim de poder estabelecer novos vínculos afetivos e uma personalidade madura (WENDLING 2002).

Os jovens adultos, devem aceitar as responsabilidades emocionais e financeiras, diferenciando o eu em relação à família de origem, desenvolvendo relacionamentos íntimos com adultos iguais, bem como o estabelecimento de relações do eu com o trabalho e independência financeira (MCGOLDRICK ,1995).

Segundo McGoldrick (1995), as principais tarefas evolutivas do adulto jovem são:

- Desenvolvimento de um self e auto- separação psicológica dos pais da infância e auto- suficiência no mundo adulto;

  • Possuir amizades maduras (de diferentes idades);

  • Ter formas adultas de brincar;

- Possuir consciência do limite do tempo e da morte;

  • Ter identidade profissional adulta.

 

 

 

 

1.4 O ADOLESCENTE E AS DROGAS

 

 

Em razão de todas estas abundantes mudanças que ocorrem nesta fase, o adolescente fica com seu ego enfraquecido, indo em busca de uma força ou um apoio extra, indo em busca das drogas como um alívio para estas tensões. Kalina (2001) nos dá como exemplo desta busca de uma maior energia a "Síndrome do Popeye". Diariamente temos evidências de nossas limitações reais e lógicas como seres humanos. Mas em geral, quanto mais fraca é uma pessoa, mais deseja ser poderosa, e as drogas, equivalentes ao espinafre do Popeye, se oferecem a nós como doses de onipotência, estando ao alcance de qualquer um. E, nesta sociedade de consumo em que vivemos, qualquer um pode se tornar um Popeye no momento que bem entender. O Popeye, ao comer o espinafre adquire uma força inigualável, deixando-o capaz de realizar o que quiser, tornando-se de forma imediata, grandioso.

Quando um indivíduo se droga, é como se ele tivesse a ilusão de ser Popeye, através de uma identificação projetiva em um objeto interno e idealizado, ou seja, uma construção narcisista. A droga permite ao usuário viver uma ilusão transitória de ser outro, dando-lhe a impressão de que isso ocorre "quando ele bem entende, no momento que quiser", acreditando que esta situação é perfeitamente controlável e dominável, conforme Kalina (2001).

A droga outorga-lhes um suporte: lhes dá ingresso em uma nova comunidade, na qual aparentemente funciona a comunicação e, ao mesmo tempo, lhe oferece uma forma de contestar, apelando a uma das poucas proibições que ainda subsistem. A curiosidade é um dos móveis que levam os jovens a consumir drogas. Saber como é isso sobre o qual tanto falam...O adolescente que experimenta se sentirá bem ou ligeiramente mal, dará por conhecido e nada mais. Ou reincidirá, para neutralizar sua debilidade. Depende do que traga consigo em termos de história individual Kalina (apud Silva, 1991.p. 102).

De acordo com Kalina (apud Silva):

    1. nem todo aquele que experimenta drogas se torna adicto. Existem bases predisponentes – individuais, familiares e sociais – que condicionam a possibilidade de uma adicção;
    2. a adicção é uma das formas em que a atividade da parte psicótica da personalidade pode ser exteriorizada, e pode ser encontrada funcionando em qualquer estrutura psicopatológica. Portanto, a partir deste enfoque teórico, a adicção deve ser considerada como uma forma de psicose que vem acompanhada de um delírio crônico sistematizado, o qual, como todos os delírios, não responde à prova de realidade, nem à da experiência; não se reverte através das explicações lógicas, a pessoa não tem consciência da doença ou a tem dissociada e vive de acordo com esta ideologia delirante;
    3. toda adicção constitui uma "via regia" para a morte, ou seja, uma prática suicida a curto ou a longo prazo, dependendo de uma ampla série de variáveis.

Pessoas predispostas a reagir de maneira específica aos efeitos aos efeitos do álcool, da morfina, de outras drogas; a saber de maneira tal que tentem utilizar este efeitos para a satisfação do desejo oral arcaico que é o desejo sexual e, simultaneamente, para a satisfação da necessidade de segurança e da necessidade da manutenção da auto-estima. Assim, pois, a origem e a índole da adição não são determinadas pelo efeito químico da droga e sim pela estrutura psicológica do paciente (FENICHEL, 1981, p.350).

O que acontece com a droga, de acordo com Bergeret (1991), pode ser comparado ao estado de paixão: jamais esquecemos completamente de uma paixão que, durante algum tempo, polarizou todos os afetos. "Quem poderia, estando separado de uma pessoa amada loucamente, ao revê-la, mesmo após vinte anos, ficar sem tentar reacender o fogo da paixão (mesmo prevendo um eventual fracasso no seu gesto)?

Conforme trabalhos clínicos desenvolvidos nos mostram, a esmagadora maioria dos clientes é constituída por indivíduos que estão na faixa da adolescência. Os motivos psicológicos e objetivos para tal fato é facilmente explicado:

1. esta é uma faixa etária onde o jovem já tem mais liberdade de locomoção e uma certa posse de recursos para adquirir a droga;

2. o adolescente, não sendo nem criança nem adulto, enfrenta uma problemática difícil e intensa, procurando situar-se diante de si mesmo e diante do meio que o cerca;

3. o adolescente revive de certa maneira conflitos que a sua própria infância estabelecera. Trata-se, portanto, de uma situação que se pode chamar de uma segunda tentativa de resolução;

4. há nesta faixa de idade, em nossa cultura, uma tendência para a formação de agrupamentos, que desenvolvem uma escala de valores que tende a se rebelar contra as regras estabelecidas. Tanto a tendência de formar grupos como a inclinação para a confrontação favorecem o consumo de drogas, pois este é um meio de expressão da inconformidade do jovem. Ainda mais, considerando-se que em nosso meio, o consumo de drogas é legalmente proibido.

No Brasil, um aspecto de natureza existencial marca a vida dos jovens; trata-se de elemento capaz de perturbar-lhes o equilíbrio e a vida, neurotizando-os marcadamente. É o exame do vestibular para o ingresso na universidade. Nessa linha, duas forças se juntam para marcar de maneira profundamente negativa a alma e inteligência dos jovens: a família e a escola (SANCHEZ, 1982).

Aqui está o primeiro mecanismo pelo qual o jovem, em primeiro lugar, se expõe às drogas, trata-se da rejeição das estruturas e dos procedimentos que o oprimem. Eis que agora o jovem se vê obrigado a sacrificar sua própria liberdade, em função de um objetivo que os outros lhe propõem ou lhe impõem. E, muitas vezes, o jovem sabe que o diálogo com seus pais, com relação às suas dúvidas, objeções e inquietações que ele possa levantar irão esbarrar no monólogo dos pais, adultos adeptos do "Sabemos mais do que você". Para evitar tempestades, o jovem encaminha-se para a solução mais cômoda, ainda que mais perigosa. Opta por aquilo que representa o segundo mecanismo pelo qual ele de expõe às drogas, para em seguida aderir a elas. Trata-se da fuga diante de situações que ele não quer enfrentar, porque envolvem pessoas, que talvez não o compreenderam, mas que ele continua a amar (SANCHEZ, 1982).

Mas, ao mesmo tempo, de acordo com Sanchez (1982), existe um outro mecanismo de adesão às drogas, que é a carência de amor. Na sociedade contemporânea, avós e tios já não se integram na sua estrutura, primos e colaterais raramente se encontram. Na cidade grande, a luta pela sobrevivência afasta as pessoas, estas, agindo como autômatos, entram e saem, mal se cumprimentam, não se encontram; as pessoas vivem juntos e não convivem. Encontram-se em certas horas, é verdade, mas diante da televisão, os seus olhares são paralelos, nem se cruzam.

Desde aquela forma radical, de ausência física dos pais, até as pequenas ausências significadas pelo não atendimento das pequenas necessidades quotidianas: a ausência do contato com o corpo materno, a brusca interrupção da lactação; a negação do olhar paterno, compreensivo e cheio de promessas; a carência da negação no processo de educação. Aos poucos a vida do filho se transforma num verdadeiro queijo suíço, muito mais marcado pelos vazios inquietantes do que pela saborosa matéria de que deveria ser feito.

Em todas essas situações e em cada uma delas, existe uma característica em comum: a carência de equilíbrio, de firmeza, de segurança, de fortaleza, de dedicação, de amor. A negação de cada um desses elementos representa uma justificativa para que a personalidade do jovem, fraca e imatura, procure afirmação no mundo dos tóxicos (SANCHES, 1982).

O usualmente referido "sofrimento incontrolável", gera uma crônica necessidade de onipotentemente dispor de forças, como o uso de drogas, para manter a ilusão de que é capaz e que não depende de ninguém, frase esta, repetida muitas vezes por dependentes químicos (RAMOS, 1998).

O jovem que não tem uma maturidade emocional, tem medo de enfrentar as frustrações, as dificuldades e o modismo, que sustenta uma predisposição ao uso de drogas. O jovem acredita que a droga possa reduzir a tensão emocional, remover o aborrecimento, seguir a moda, fazer amigos, resolver problemas, trazer o prazer imediato, entre outros. Estudos indicam que talvez o interesse dos adolescentes seja o caminho para compreender sua escolha de usar a droga. Interesse de ser aceito, desejo de pertencer a algum grupo, desejar ser algo, pode ser a mais forte influência relativa ao uso de substâncias (ROSA, 1996).

 

 

 

 

1.5 CONCEITOS BÁSICOS

 

 

Substâncias Psicoativas:

Qualquer substância, utilizada por qualquer via de administração, que altera o humor, o nível de percepção ou funcionamento cerebral. Incluem desde as medicações prescritas por um médico até o álcool e solventes, sendo todas capazes de produzir alterações na capacidade de aprendizagem.

Toxicomania:

Para os autores de orientação psicanalítica, o termo toxicomania define-se como qualquer busca exagerada pelo prazer. Dentro desta definição, podem estar incluídos indivíduos como os adictos das drogas, dos remédios, da bebida, da comida, do sexo, do tabaco, do trabalho, etc. Ou seja, algum exagero visando a obtenção do prazer, segundo Bento (apud Silva, pg. 8).

Deve-se levar em consideração que o uso contínuo ou não exagerado destas drogas, utilizadas voluntariamente, não pode ser classificada como toxicomania, sendo estes, apenas usuários de drogas. Já com relação ao taxicômano, nenhum é capaz de curar-se definitivamente por vontade própria, sem a ajuda externa, a não ser que este esteja em uma fase muito inicial da toxicomania, de acordo com Bergeret (1991).

Desde 1950, a Organização Mundial da Saúde havia sugerido uma definição da toxicomania, nesses termos:

  1. desejo ou necessidade incontrolável de continuar consumindo a droga ou de buscá-la por todos os meios;
  2. tendência a aumentar as doses;
  3. dependência psíquica e, geralmente, física em relação aos efeitos da droga;
  4. efeitos nocivos ao indivíduo e à sociedade.

Mas com o decorrer dos anos, os peritos da OMS perceberam que essa definição não se aplica a todas as drogas e, em 1969, através do termo farmacodepenência, procuraram ser mais precisos:

"Estado psíquico e, algumas vezes, também físico, resultante da interação entre um organismo vivo e um medicamento, caracterizando-se por modificações do comportamento e outras reações, que incluem sempre um impulso para tomar o medicamento de maneira contínua ou periódica, com o fim de reencontrar seus efeitos psíquicos e, algumas vezes, evitar o mal-estar ocasionado pela abstinência. Este estado pode acompanhar-se, ou não, de tolerância, um estado de adaptação farmacológica, fazendo necessário um aumento das doses, para conseguir os efeitos iniciais. Um mesmo indivíduo pode ser dependente de vários medicamentos" (apud Bergeret, 1991.p.87).

Sendo assim, o toxicômano encontra-se em situação de sofrimento, podendo esta última existir antes da tomada do tóxico, ou então acontecer após a perturbação ocasionada pelo encontro com o produto.

É muito importante fazermos aqui, uma distinção entre os toxicômanos e os usuários de drogas.

Usuário de drogas:

Este, consome produtos com um intuito recreativo, ou como um de seus hábitos e das suas relações sociais como os adultos fazem com o álcool, o tabaco e os medicamentos.

Mas para fazermos uma distinção entre o usuário de drogas e o toxicomaníaco, devemos sempre levar em consideração as modalidades do consumo, como a freqüência em que esta é utilizada, o aumento das doses utilizadas e a dependência psíquica.

Habitualmente é um jovem que, por um misto de curiosidade, medo de ser ridicularizado ou rejeitado pelo grupo ao qual pertence ou, então, para satisfazer outros tipos de angústias que assolam no momento.

Embora este corra certos riscos, inclusive policiais e jurídicos, além de perturbações orgânicas, o indivíduo continua mantendo o uso freqüente da droga.

Traficante:

O traficante é aquele indivíduo que exerce a compra e venda do tóxico como profissão, principal ou não, e que obtém lucro financeiro com tal comércio. Este elemento pode ser, ele próprio, toxicômano ou não.

Geralmente são elementos delinqüenciais de alta periculosidade e que precisam ser tratados como indivíduos muito nocivos e perigosos à sociedade (SANCHEZ, 1982).

Adicção:

"Inclinação ou apego de alguém por alguma coisa" Kalina (2001).

Adição:

"Significa a dependência da droga com a presença de sintomas de abstinência" Kalina (2001).

Abuso de drogas:

Quando o uso continuado de uma substância que altera a mente representa mais para o usuário do que os problemas causados por tal uso, pode-se dizer que a pessoa está abusando da droga.

Dependência:

  1. Dependência Psicológica: centra-se na necessidade de droga pelo usuário, de modo a atingir um nível máximo de funcionamento ou sentimento de bem-estar. É uma característica de todas as drogas.
  2. Dependência Física: indica que o corpo do usuário da droga se adaptou fisiologicamente ao uso crônico da substância, com o desenvolvimento de sintomas quando a droga é interrompida ou retirada. Esta falta é sentida como uma síndrome de abstinência. Ao verificarmos a dependência física, devemos levar em consideração dois importantes aspectos:

    1. tolerância: que é a capacidade de tolerar doses cada vez maiores da droga, ou seja, doses cada vez maiores para atingir os mesmos efeitos. O indivíduo pode desenvolver tolerância a um aspecto da ação de uma droga e não a outro;
    2. retirada ou Síndrome de Abstinência: é o surgimento de sintomas fisiológicos quando a droga é interrompida abruptamente. Consiste de uma síndrome compreendendo uma ampla variedade de sintomas possíveis (SCHUCKIT, 1991).

 

 

 

 

 

1.6 PERSONALIDADE E TOXICOMANIA

 

 

De acordo com Sanchez (1982), na Antiga Roma, persona significava "máscara de teatro", deduzindo-se com isto que se dava uma aparência ao indivíduo tal como era percebido socialmente, o que por sua vez conduz ao pensamento de que aí já havia uma clara distinção:

a) personalidade como é percebida socialmente, tratando-se, portanto, de uma aparência, um ajuste;

b) a personalidade tal qual ela é, portanto, a sua essência mais profunda e mais oculta.

Existem, atualmente, diversas teorias com a finalidade de explicar a personalidade e, portanto, há bons motivos para crer que ainda falta muito para se obter um domínio completo acerca desta situação.

Mas para que possamos compreender os pontos de vista hoje vigentes quanto à problemática da personalidade, são os seguintes ângulos explorados pelos vários autores para explicar as suas teorias:

  1. fator hereditário;
  2. fator constitucional orgânico;
  3. fator constitucional psíquico;
  4. fatores orgânicos ocorridos durante a vida;
  5. fatores psíquicos ocorridos durante a vida (vivenciais);
  6. fatores sócio-familiares (culturais e religiosos) (SANCHES, 1982).

Um exame mais sistemático da situação mostra que atrás do vício, está uma personalidade em estado de decadência, que faz do uso da droga um instrumento para atender a várias situações simultaneamente:

a) chamar por socorro;

b) anestesiar suas angústias;

c) satisfazer aos prazeres de origem inconsciente em níveis extremamente primitivos;

  1. exprimir, através desta situação, conflitos familiares, encarregando-se ele – o toxicômano – de ser a expressão da doença familiar.

Pelas experiências clínicas que vêm sendo realizadas, constata-se que tais indivíduos geralmente procedem de famílias com sérios problemas de estrutura, com antecedentes psiquiátricos já diagnosticados ou não (SANCHEZ, 1982).

A análise de qualquer problema humano revela que a sua origem pode encontrar-se em desequilíbrios que se podem situar em qualquer dos três campos básicos que marcam a sua existência: o pessoal, o familiar e o social. Estes três elementos interagem entre si e não podem ser considerados isoladamente. Sabe-se que um indivíduo nasce com uma carga hereditária e desenvolve uma personalidade própria, através das suas experiências e vivências pessoais. Participa de um grupo primário – a família – onde ocupa determinado lugar, que lhe é exclusivo, onde desenvolve papéis conforme seu tipo de relacionamento com outras pessoas em diferentes situações de parentesco. Além disso, o homem vive dentro de uma comunidade, que lhe atribui um status específico, acompanhado de outros papéis: o profissional, o social, o econômico, o político, etc.

Tem igual destino quem recorre à droga, pois, ao recorrer à automedicação, mediante substâncias "neuropsicobiotóxicas e sociais", para poder viver a ilusão de superar debilidades ou fraquezas humanas, ao invés de liberar-se ou tornar-se independente, torna-se dependente de drogas e, assim, jamais resolverá nada (KALINA, 2001).

Então, podemos dizer que o adicto vive permanentemente um mal-entendido e, além disso, por norma é mal- entendido, e, o que ainda é mais trágico, racionaliza sua patologia em termos de uma ideologia de vida, ou melhor, de morte, ou seja, assume um delírio, diferente em conteúdos dos que conhecemos nas outras psicoses, mas igual em sua estrutura. Para eles, a "química" é algo similar à busca da "pedra filosofal", para os alquimistas, com a importante diferença que os adictos oferecem a si mesmos para desempenhar o papel de "cobaias" para suas pesquisas (KALINA, 2001).

Para entender um adicto, deve-se pensá-lo invertendo o sentido lógico: ele se droga pelo prazer de maltratar-se, já que não é possível conceituar o prazer sem as consequências; mata-se para encontrar sentido na vida, torna-se escravo – simbiose química - , para tornar-se independente ou liberar-se dos vínculos simbióticos humanos não- resolvidos com seus objetos primários, ou seja, a família ou equivalentes (KALINA, 2001).

Kalina (2001) ainda nos diz que, em síntese, para tentar ser, o adicto aceita viver como um não ser, e morrer com a fantasia maníaco- onipotente de vencer a finitude, condição inerente à nossa pertença ao reino animal, realidade que o gênero humano não consegue aceitar, e desde o início da história tenta negociar com todos os deuses que conhecemos seu interesse em vencê-la e chegar a ser imortal. O correlato dessa postulação é a incapacidade e/ou fracasso na busca de uma identidade própria.

Aqueles que nascem com uma determinada vulnerabilidade genética ou desenvolvem, pelas vicissitudes da vida, uma fragilidade neuropsicobiológica e social, são os que desenvolvem processos adictivos como uma tentativa de "tampar" quimicamente seus déficits, quando as condições externas, ou seja, as sociofamiliares, favorecem o encontro desse caminho "ilusório", com consequências nefastas em todos os níveis da vida, a curto ou longo prazo (KALINA, 2001).

Kalina (2001), ainda, ao comentar sobra a fragilidade do ego do adicto, refere que ele carece da capacidade de tolerar as frustrações, a ansiedade, a agressividade e a de poder esperar. Tal vulnerabilidade reflete-se em muitas atitudes que os caracterizam.

Nos dias de hoje, o alto nível de decibéis aos quais estão expostos durante suas horas nas discotecas, as fumaças decorativas emitidas, os jogos de luzes de todo o tipo, pela intensidade e modalidade com que são utilizados, induzem, também, ao consumo de álcool e/ou outros combustíveis, para se poder "viver a noite". Tomemos como exemplo as famosas raves, especialmente dedicadas à venda de metanfetaminas, leia- se ecstase, com músicas especialmente preparadas para esses eventos, que reúnem milhares de jovens, e nas quais essa droga, denominada "contactógena", pois ela favorece o contato alegre e desinibido entre os que a consomem, é fator central que os conclama. Com sua ação, mobiliza seus usuários a dançar durante horas, ficando severamente desidratados e, em consequência, devendo consumir muito líquido, que a prática mostra que não é somente água, mas também cerveja e outros tipos de bebidas alcoólicas, além do acréscimo de outras drogas psicotóxicas, como cocaína, a maconha, etc., com graves consequências para a saúde desses consumidores e risco para os demais, já que, ao sair das discotecas, dirigem seus carros.

 

 

 

 

 

1.7 DROGA

 

 

A droga é toda substância lícita ou ilícita que, uma vez introduzida no organismo, provoca alterações no seu funcionamento.

A palavra droga, etimologicamente, significa mentira, embuste, coisa de má qualidade, etc.

As drogas psicoativas, de acordo com Ferreira (1998), são aquelas que alteram o funcionamento do Sistema Nervoso Central (SNC), principalmente a consciência, as funções cognitivas (memória, atenção, orientação e, consequentemente, o pensamento), o afeto, sensopercepção e conduta, e que podem levar à adição e a problemas físicos ameaçadores à vida.

As ações farmacológicas específicas das drogas dependem da via de administração, dose e presença ou ausência de outras drogas, e condição clínica do paciente. A distribuição, metabolismo e sensibilidade às substâncias também são afetadas por mecanismos genéticos, provavelmente através dos níveis de sensibilidade dos órgãos terminais (como os do SNC) e da quantidade e característica das enzimas do metabolismo e o total de ligação às proteínas (SCHUCKIT, 1991).

A descrição das alterações cognitivas que caracterizam os quadros agudos das drogas legalizadas, tais como o álcool, o tabaco, a cafeína e as benzodiazepinas, entre outras, nos são bem conhecidas, e algumas estão citadas no presente trabalho. Referimo-nos agora, a problemática referente às alterações cognitivas produzidas pelas drogas ilegais, em especial a maconha, por diversas razões:

1) pelo baixo custo que tem, o que facilita sua enorme difusão e consumo entre os jovens;

2) pela severidade das alterações que produz, complicadas ainda mais quando misturadas com álcool;

3) porque há um poderosos apoio do narcocomércio que, mediante os recursos de uma propaganda eficientemente orquestrada, conseguiu instalar na população a crença de que se trata de uma droga inócua, divertida, símbolo de rebeldia e com maravilhosas contribuições para a farmacopéia internacional (KALINA, 2001).

 

 

 

1.7.1 Canabinóis

 

 

A maconha está entre as drogas mais utilizadas atualmente, porém, o THC (delta-9-tetra-hidrocanabinol) é uma droga antiga; seu uso foi constatado por volta de 2.700 a.C.. Ele foi utilizado em muitas culturas, do Oriente ao Ocidente. Como resultado, recebeu uma série de nomes, como haxixe, charas (a resina seca das flores da planta da maconha), bhang (as resinas das folhas pequenas). Na América do Norte, como na América do Sul, o THC é obtido como maconha (marijuana) ou haxixe (SCHUCKIT, 1991).

O THC provém da planta da maconha, Canabis sativa, a qual cresce facilmente em climas quentes. A percentagem de THC ativo produzida é paralela à quantidade de luz solar recebida pela planta. A maconha, fonte menos potente de THC, consiste em folhas secas da planta, e o haxixe e outras fontes mais potentes da droga são as resinas das flores da planta.

 

Efeitos Predominantes:

Os maiores efeitos do THC são no cérebro, coração ou aparelho cardiovascular e pulmões. A maioria das alterações ocorre de forma aguda e parecem ser reversíveis.

As alterações de humor observadas com o THC dependem não só da quantidade de droga, mas também das circunstâncias em que é usada e, como em qualquer outra droga "leve", do que o usuário espera acontecer. Também é importante considerar a forma na qual a droga foi consumida (haxixe ou em forma de fumo), a via de administração (fumo versus ingestão) e a pureza da droga (que pode variar entre 0,5 a mais de 10%)(SCHUCKIT, 1991).

Além da euforia, o indivíduo usualmente experimenta uma sensação de relaxamento, sonolência e aumento da libido, é incapaz de manter uma noção de tempo precisa, sente fome e exibe uma interação social diminuída. O usuário tende a desenvolver problemas com a memória recente e pode demonstrar um prejuízo da capacidade de desempenhar tarefas com etapas múltiplas, de acordo com Schuckit (1991).

A maconha é uma droga utilizada de modo "recreacional" por todos os estratos da sociedade, atingindo todas as idades e profissões, embora o uso predominante esteja entre pessoas mais jovens. O usuário médio de maconha está na faixa etária de 18-25 anos.

Nenhum observador cuidadoso duvida que fumar muito marijuana se correlaciona com uma síndrome amotivacional, caracterizada por cansaço, indiferença e uma incapacidade neurótica de cumprir coisas que a sociedade considera importantes.

 

 

 

1.7.2 Álcool

 

 

O álcool, a nicotina e a cafeína são as drogas mais amplamente usadas na civilização ocidental, sendo o álcool a mais destrutiva das três.

Esta droga amplamente usada é um depressor do sistema nervoso central, a qual, em doses suficientemente elevadas, é um anestésico. Afeta adversamente quase todos os sistemas corporais.

É importante observar a distinção entre estudos de padrões de consumo e estudos sobre o alcoolismo. A maioria dos americanos bebe, e uma minoria substancial dos homens jovens bebe ao ponto de sofrer dificuldades temporárias. Entretanto, estes homens jovens usualmente não desenvolvem as dificuldades sérias e persistentes relacionadas ao álcool que podem ser denominadas alcoolismo. Assim, os problemas menos sérios, tais como discussões com os amigos ou faltas ocasionais ao trabalho ou à escola devido à bebida, devido à sua alta prevalência e falta de especificidade não podem ser usadas, por si só, para prever problemas futuros relacionados ao álcool, pois estas características também são observadas numa percentagem de pessoas que não irão desenvolver o alcoolismo (SCHUCKIT, 1991).

O álcool é uma droga muito atraente, pois seus efeitos imediatos em doses moderadas são prazerosamente percebidos pelo usuário. Além disso, para os indivíduos não alcoolistas que não estão usando medicações e apresentam boas condições físicas, o álcool em quantidade equivalente a até dois drinques diários possui os efeitos benéficos de aumentar a socialização, possivelmente estimular o apetite, talvez reduzir o risco de doença cardiovascular. Quando o álcool é ingerido com moderação por tais indivíduos com boa saúde, a maioria das alterações patológicas que ocorrem são reversíveis. Mas, à medida que o consumo aumenta para mais de dois drinques ao dia, ou quando os indivíduos bebem, o dano a vários sistemas corporais pode ser mais sério.

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