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Peculiaridades do uso de drogas entre adolescentes do sexo feminino

Peculiaridades do uso de drogas entre adolescentes do sexo feminino

 

Dra. Jackeline S. Giusti

Médica Psiquiatra da Infância e Adolescência.

Médica Assistente do Ambulatório de Adolescentes e

Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP

 

Para a maioria das pessoas que usarão drogas ilícitas ao longo da vida, a primeira oportunidade de experimentação ocorre durante a adolescência. Estudos epidemiológicos mostram que a prevalência de uso de drogas entre os adolescentes é alta e varia de 23% a 28%, sem diferença entre os gêneros. Apesar disso, a prevalência de adolescentes do sexo masculino que chegam para tratamento especializado é maior do que entre o sexo feminino (4 garotos: 1 garota).

 

Homens e mulheres também diferem quanto aos tipos de substâncias consumidas. Embora o uso de substâncias ilícitas ainda seja mais freqüente entre os homens, nos últimos anos esta diferença vem diminuindo, principalmente entre os jovens. A prevalência de uso e abuso de substâncias prescritas (analgésicos, tranqüilizantes, estimulantes e sedativos), no entanto, continua sendo maior entre as mulheres (de qualquer idade) do que entre os homens. Quando analisados somente a faixa etária da adolescência (população de 12 a 17 anos), encontramos prevalências de uso/abuso de drogas (lícitas ou ilícitas) semelhantes entre ambos os sexos ou até mesmo superiores no feminino (por exemplo: solventes e cocaína), o que não se verifica quando considerada a população geral (acima de 12 anos).

 

A idade de início do uso de substâncias vem diminuindo progressivamente entre os jovens, sendo esta precocidade mais marcante entre as garotas, particularmente para o álcool (substância mais consumida entre os jovens) e o tabaco. Fisicamente as meninas tendem a ter menor tamanho corporal do que os meninos, o que as torna mais vulneráveis aos problemas relacionados ao uso de álcool, mesmo com menores níveis de consumo. Além disso, as garotas têm mais risco de se tornarem dependentes do que os garotos.

 

O consumo de drogas psicoativas na adolescência tem conseqüências diversas. Há prejuízo da cognição, capacidade de julgamento, do humor e das relações interpessoais, além do risco de dependência, superdosagem, acidentes, danos físicos e psicológicos e morte prematura. A alteração da percepção e reações psicomotoras induzidas pela droga podem levar a acidentes fatais e ao suicídio. A dependência de droga aumenta o risco do jovem se envolver em crime e prostituição para financiar seu próprio hábito. As conseqüências decorrentes do uso de drogas entre os adolescentes são semelhantes para ambos os gêneros. Meninas e meninos apresentam queda no rendimento escolar, abandono escolar, expulsão da escola e envolvimento em atividades ilegais (roubo e tráfico), sem diferença entre os gêneros. Apesar disso, as meninas têm menos problemas com a polícia.

 

 Garotas dependentes ou que abusam de álcool são mais freqüentemente vítimas de abuso sexual do que as que não usam nenhum tipo de drogas, enquanto que os garotos são com maior freqüência vítimas de outros atos de violência, tais como abuso físico ou testemunha de atos violentos, quando comparados com os que não abusam e não são dependentes de álcool.

 

A presença de comorbidades está positivamente relacionada à gravidade do transtorno por uso de substância e com o início precoce do uso de drogas. Transtorno de conduta, transtorno opositivo desafiante, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno depressivo maior e transtorno de ansiedade são as comorbidades mais freqüentemente associadas com problemas por uso de substância, e também são mais prevalentes em população de usuários de drogas quando se compara com a população não usuária. Entre as usuárias de drogas, também é comum o diagnóstico de transtorno de alimentação. As garotas geralmente se preocupam muito mais com sua imagem corporal do que os garotos e tentam controlar o peso de várias maneiras, freqüentemente pouco saudáveis como fumar, restringir alimentação, vomitar, tomar laxante ou pílulas para emagrecer. As garotas que fazem dieta para controlar o peso têm mais probabilidade de fumarem e beberem do que as garotas que não fazem dietas.

 

A prevalência de comorbidades psiquiátricas é significativamente maior entre as adolescentes do sexo feminino do que entre sexo masculino com transtornos por uso de substâncias, principalmente os transtornos do humor (mania e depressão) e transtornos de ansiedade (fobias e transtornos de estresse pós-traumático). Entre o sexo masculino é mais freqüente o transtorno por déficit de atenção e hiperatividade e o transtorno de conduta.

 

Na adolescência também são mais comuns sentimentos de tristeza, solidão e ideação suicida entre as garotas do que entre os garotos. Tais sentimentos têm grande influência sobre a progressão do uso de drogas para abuso/dependência entre as garotas. Aquelas que usam substâncias também referem mais sentimentos negativos e comportamentos suicidas do que as garotas que não usam drogas. Histórico de qualquer tipo de abuso na infância é mais comum entre as garotas e mulheres com problemas por uso de substâncias (comparadas a garotas e mulheres que não fazem uso de substâncias), o que sugere que estes traumas da infância continuam afetando as mulheres mesmo quando adultas.

 

Embora as garotas apresentem menos problemas com a polícia do que os garotos, elas apresentam igual envolvimento em atividades ilegais e na mesma proporção que o sexo oposto. Esta característica, provavelmente se deve ao comportamento dos garotos ser mais evidente em suas conseqüências sociais. Esta diferença de comportamento entre os gêneros pode explicar a maior procura por tratamento especializado entre o sexo masculino (4:1), enquanto que as garotas procuram tratamento devido a outras comorbidades (depressão, ansiedade). As conseqüências menos evidentes observadas entre as garotas são provavelmente devido à natureza menos agressiva destas. Elas também costumam refletir mais a respeito de seus comportamentos “errados” e também sentem mais culpa do que os garotos. Geralmente a gravidade dos problemas de comportamento causados pelos adolescentes, considerando danos físicos, é menor entre as meninas do que entre os meninos.

 

Considerando que as garotas consomem drogas na mesma proporção que os garotos, envolvem-se igualmente em atividades ilegais e têm maior risco de se tornarem dependentes, concluímos que os riscos do uso de drogas entre as garotas é tão ou maior do que entre os garotos. Desenvolvimento de métodos para diagnóstico precoce, além de maior conscientização dos profissionais de saúde e da população e desenvolvimento de tratamento que atenda as necessidades destas garotas são necessários para um melhor prognóstico de prevenção e tratamento.