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Aspectos sócio-culturais e históricos do consumo de drogas por mulheres

Aspectos sócio-culturais e históricos do consumo de drogas por mulheres

Atualmente, já não existem dúvidas de que, por muito tempo, a dependência feminina permaneceu como um fenômeno largamente escondido na maioria dos países (UNODC, 2004). Várias razões podem ser levantadas para explicar esse fenômeno, mas é possível inferir que a noção ou mesmo a crença de que o uso problemático de substâncias fosse um padrão de comportamento quase exclusivamente masculino, tenha tido efeitos negativos no estudo das relações entre as influências do gênero e a questão das substâncias psicoativas (Wilsnack et al., 2000).

 

Se esta noção esteve baseada em dados que apontavam a menor prevalência do consumo de drogas por mulheres, certamente foi influenciada pela posição social da mulher e pelo estigma que cerca a dependência feminina. Nesse sentido, conquanto possa ser dito que existe um preconceito social em relação a qualquer dependência de substâncias psicoativas, a mulher é ainda mais estigmatizada que o homem. Estereótipos de maior agressividade, tendência à promiscuidade, falhas no cumprimento do papel familiar estão mais comumente associados às mulheres que aos homens dependentes (Turner et al., 1998; Battjes et al., 1999).

 

Historicamente, tanto o padrão de uso de substâncias entre as mulheres, como a sua interpretação social tem variado, o que têm impacto não somente nas atitudes frente ao uso feminino, mas também na disponibilização de programas específicos e na resposta ao tratamento (UNODC, 2004). Contudo, não é difícil observar que, apesar de todas as mudanças ocorridas nos papéis sociais, o preconceito contra as mulheres mantém-se até os dias de hoje. Schober e Annis (1996) sugeriram que esse estigma estaria na base do receio que acompanha a busca de tratamento, influenciando a forma indireta que as mulheres dependentes geralmente utilizam para abordar seus problemas. Para lidar com o desconforto e a vergonha e, provavelmente, por sentirem-se menos inadequadas em seus papéis femininos, elas procuram ajuda, geralmente, em serviços de ginecologia e clínica médica, com queixas vagas sobre sua saúde física ou psíquica, escondendo ou minimizando seu problema principal (Green et al., 2002).

 

A principal conseqüência desta situação é que ainda atualmente a mulher dependente de drogas mantém-se sub-diagnosticada e sub-tratada.

 

Além do estigma, em relação aos aspectos sociais da dependência feminina, há duas questões especialmente preocupantes. A primeira é a associação entre o abuso de drogas e as doenças sexualmente transmissíveis, particularmente o HIV (Woods et al., 1999; Bastos et al., 2000). Em 1994, nos Estados Unidos, 70% das mulheres com AIDS tinham história de uso de drogas ilícitas (Wallace et al., 1994).

 

O alto risco entre as mulheres dependentes de contrair doenças sexualmente transmissíveis, principalmente AIDS, associa-se à maior probabilidade que elas apresentam de ter um companheiro também dependente, à freqüência elevada de relações sexuais desprotegidas e à ocorrência comum de comércio sexual (Astemborski et al., 1994; Lowry et al., 1994). A prostituição como forma de obter dinheiro para as drogas é uma questão que aparece em grande porcentagem entre as mulheres dependentes, praticamente em todas as regiões do mundo (UNODC, 2004).

 

O outro aspecto preocupante da dependência feminina refere-se à violência doméstica e ao abuso sexual. O uso de drogas esta intimamente relacionado à violência, seja como fator desencadeante, seja como efeito. Sabe-se que a mulher dependente tem um risco maior de ser vítima de agressão, pois, em geral tem pouca capacidade para autoproteção e as drogas  aumentam a vulnerabilidade e o potencial para a violência (UNODC, 2004; CSAT, 2005). Por outro lado, usar drogas pode ser uma forma de refúgio ou escape para suportar situações de violência familiar (Bonifaz, Nakano, 2004).

 

Um aspecto específico da mulher dependente de substâncias psicoativas é a relação entre abuso físico e sexual tanto na infância, quanto na maturidade e a dependência de álcool e outras drogas (Jarvis et al., 1998; UNODC, 2004). Algumas estimativas sugeriram que aproximadamente 70% das mulheres em contato com serviços de tratamento foram vítimas de abuso físico ou sexual durante a infância e que a prevalência de incesto variava de 12 a 31% (Health Canada, 2001; Becker, Duffy, 2002).

 

Concluindo, é importante ressaltar que o uso de drogas pela mulher é especialmente influenciado pelo contexto social (UNODC, 2004). Neste sentido, o entendimento dos fatores sócio-culturais que acompanham a dependência feminina é fundamental para a elaboração de estratégias políticas, ações preventivas e opções terapêuticas efetivas.

 

Silvia Brasiliano

Psicóloga. Doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Coordenadora do Programa de Atenção à Mulher

Dependente Química - PROMUD do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

 

 

Bibliografia:

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- Wilsnack RW, Vogeltanz ND, Wilsnack SC, Harris TR. Gender differences in alcohol consumption and adverse drinking

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- Woods WJ, Guydish JR, Sorensen JL, Coutts A, Bostrom A, Acampora A. Changes in HIV-related risk behaviors following drug

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