Associação Brasileira de Justiça Terapêutica
Estatuto
Diretoria
Associe-se
Programa de Justiça Terapêutica
Artigos
Legislação
Referências Bibliográficas
Sobre drogas de abuso
Artigos
Centros de Recuperação
Links
Notícias
Fale Conosco

Padre Chagas 79 / 801
(esq. Hilário Ribeiro)
Moinhos de Vento
90580-080 Porto Alegre / RS
51 3013 8820 / 3023 8824


Parceiros:





















Pº Castellana, 150 6º Dcha
28046 Madrid
Teléfono: 91 457 50 61
Fax: 91 457 29 78
E-Mail

 


Tratamento para mulheres

Tratamento para mulheres

 

Uma nova visão de recuperação que atende as necessidades específicas do gênero feminino

 

O estereótipo da mulher, dona-de-casa, que deveria dar toda a atenção ao lar e ao marido, fez parte da vida das brasileiras por muito tempo. Foi o século XXI que deu lugar a uma mulher batalhadora e independente. Hoje, a mulher moderna quer estar em forma, cuidar da rotina da casa, dos filhos, das obrigações do trabalho e até mesmo, manter a rotina de estudos, quando possível. Mas, com todas essas tarefas, o sexo que não tem nada de frágil, sofre com problemas de saúde decorrentes desse novo estilo de vida. Dados do I Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, realizado em 2001 pela Secretária Nacional Antidrogas – Senad e pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – Cebrid, apontam que as mulheres são as principais consumidoras de estimulantes (drogas anfetamínicas), tranqüilizantes (benzodiazepínicos) e de remédios para estimular o apetite (orexígenos).

 

Pesquisas que tratam da dependência química da mulher começaram tarde no mundo todo. Pensava-se que esse era um problema praticamente restrito aos homens. Atualmente, os estudiosos questionam pesquisas de anos anteriores e explicam que o preconceito e o estigma social foram algumas das causas da dependência feminina ter sido “desconsiderada”. O que não significa que um número relevante de mulheres não tenha ficado doente. Pesquisadores analisam que era difícil para as mulheres procurarem por tratamento porque sempre foram muito estigmatizadas e poderiam sofrer com o preconceito. O desconforto da mulher, a vergonha de ser taxada com vulgaridade fez com que muitas escondessem a sua doença. Contudo, a mulher moderna tomou coragem, se informou e optou por se tratar em vez de prosseguir a vida escondendo a sua doença ou sofrendo as conseqüências desse problema.

 

O aumento da procura das mulheres por tratamento para dependência química e os resultados apresentados em centros que recuperavam ao mesmo tempo, homens e mulheres (tratamentos mistos), fizeram com que estudiosos e médicos experimentassem abordagens alternativas e tratamentos que se preocupassem com as particularidades da vida do gênero feminino. Um tratamento direcionado para mulher, por exemplo, deveria levar em consideração que a paciente pode não ter com quem deixar os filhos, deve ter medo de perder a guarda legal de suas crianças, pode ser vítima de violência, sofrer com problemas de auto-estima e outras necessidades.

 

No Brasil, existem vários centro de tratamentos específicos, que objetivam a recuperação total da paciente. A psiquiatra Dr. Patrícia Hochgraf, Coordenadora do primeiro serviço voltado exclusivamente para o gênero, o Programa de Atenção à Mulher Dependente Química – Promud, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, acredita que “quando a mulher percebe que será bem atendida e não será constrangida, fica estimulada a buscar tratamento”. No Promud, por exemplo, faz parte do tratamento apoio legal, presença de creche, assistência social entre outros. Em entrevista concedida a psiquiatra fala um pouco sobre as mulheres usuárias de drogas, principalmente de álcool, os motivos que normalmente as levam à dependência e as particularidades de um tratamento feito para a mulher.

 

Segundo o National Institute an Alchohol abuse and Alcolism – NIDA, (sigla em inglês), o organismo feminino absorve 30% a mais de álcool que o masculino. Isso acontece porque as mulheres têm no corpo mais gordura e menos água que os homens. Além do mais, o sexo masculino produzir a enzima desidrogenase (responsável por metabolizar o álcool que entra no organismo e preservar o fígado) em quantidade duas vezes maior que as mulheres.

Como a mulher pode reconhecer que é dependente e que precisa

de tratamento?

Resp.: Para mulher é difícil se reconhecer como dependente. Mas, quando

ela começa a observar que tem problemas em decorrência do uso de

drogas. Quando o uso da substância começa a substituir outros prazeres,

quando ela passa, por exemplo, a beber mais do que gostaria, tenta parar

e não consegue, começa a ter sintomas físicos e, principalmente, quando

as pessoas ao redor começam a apontar esse problema, é hora de pensar

na possibilidade de um tratamento.

 

“A natureza da mulher não favorece o uso de drogas”. Essa frase

é preconceituosa ou é biologicamente verdadeira?

Resp.: A fisiologia da mulher faz com que o gênero tenha mais problemas

pelo o uso de álcool. Problemas físicos inclusive. A mulher tem diferenças

isiológicas importantes em relação aos homens, obviamente. Essas

diferenças fazem com que elas se tornem dependentes mais rapidamente.

A progressão do alcoolismo também é mais rápida nas mulheres. Mas, em

compensação ela é muito mais resistente à cocaína que os homens. Isso

também pode ser explicado por alterações enzimáticas.

 

Por que as mulheres usam drogas às escondidas?

Resp.: As mulheres são mais estigmatizadas. Existe mais preconceito contra as mulheres. Uma mulher

alcoolista vai ter muito mais problemas sociais que uma mulher que não bebe. As pessoas acham que é muito

mais feio uma mulher beber que um homem. As mulheres que fazem uso de álcool podem ser classificadas

como promíscuas, amorais e incapazes de cuidar da família e dos filhos. Por isso, muitas têm medo de se

assumirem como dependentes. Sofrem uma desaprovação social.

 

Por que as mulheres usam mais inibidores de apetite e tranqüilizantes que

os homens?

Resp.: No geral as mulheres usam mais drogas lícitas, porque têm menos

envolvimento com atividades ilícitas (como ir a uma boca de fumo no morro, por

exemplo). Embora isto esteja mudando bastante.

 

 Qual a importância dos tratamentos específicos para mulheres?

Resp.: Nos grupos mistos há predominância de homens. As preocupações dos homens são diferentes. Eles se

apegam a questões profissionais e judiciais. A mulher está mais ligada aos problemas com relacionamentos,

auto-estima e corpo. A inserção no mercado de trabalho também preocupa. E, justamente pelo tipo de

preocupação que manifestam elas desenvolvem ansiedade e depressão com muito mais facilidade.

 

Por que as reabilitações específicas apresentam melhor resultado que as mistas?

Resp.: È comprovado na literatura o fato de as mulheres responderem melhor a programas específicos. Isto

se verifica tanto na evolução quanto na permanência no tratamento. As mulheres evoluem melhor em

recuperações que atendam especificamente suas necessidades. Elas recebem melhor o tratamento, ficam

abstinentes por mais tempo e melhoram em outras áreas da vida. Programas exclusivos para mulheres devem

preocupar-se muito mais com o fato de tratarem mulheres do que tratarem mulheres farmacodependentes.

 

Durante os tratamentos que acompanha já observou quais são os

principais motivos que influenciam a mulher a fazer uso de drogas?

Resp.: O que a gente sabe é que quando a mulher começa a usar álcool ela está

passando por momentos de estresse. Por exemplo, separação conjugal, morte do

companheiro, etc. A síndrome do ninho vazio (conjunto de sintomas pelos quais passa

a mulher que se dedicou muito à família e vê seus filhos independentes ou

deixando o lar) também aparece muito junto com a depressão. No caso da cocaína, as mulheres se referem à depressão, sentimentos de isolamento social, pressões profissionais e familiares e problemas de saúde.

 

As mulheres também sofrem mais com síndrome de depressão que os homens. Isso explica o

maior uso de tranqüilizantes pelo sexo feminino?

Resp.: Não tranqüilizantes necessariamente, mas o álcool também. As mulheres sofrem mais de alcoolismo

secundário que os homens. Quando a mulher está deprimida angustiada, não está bem, acha que o álcool

resolverá os problemas. Nem tratou a depressão e ainda tem outro problema, o alcoolismo.

 

Em texto publicado no sitio da Fundação Albert Einstein em 2004, você explica que, em geral, as

mulheres iniciam o uso de drogas incentivadas pelo companheiro sexual. No texto, comenta

também que esses parceiros não costumam apoiar a companheira durante tratamentos para

dependência química. Como lidar com essa situação?

Resp.: Alguns tratamentos, como no Promud, se tenta fazer uma abordagem familiar que permita que o

homem se insira no processo, e se trate. Muitas vezes os companheiros também bebem. A idéia é encaminhá-

los para uma reabilitação em que ambos possam se curar. E eles possam ajudar a ajudá-las. Serve para

qualquer droga, lícitas ou não.

 

Comorbidades

 

Em 1999 um estudo observou que 38% de uma amostra de 79 pacientes alcoolistas, apresentavam transtorno de controle de impulso, 24, 5% transtorno intermitente e 8,9% eram dependentes em jogo (jogo patológico),  3,8% eram cleptomaníacas – pessoas que roubam compulsivamente – ou tinham mania de arrancar seus próprios cabelos (tricotilomania).

O que deveria ter em um tratamento ideal para mulheres?

Resp.: O tratamento deve ser multidisciplinar. Precisa aliar atendimento

psiquiátrico a grupos de psicoterapia, acompanhamento nutricional e terapia

ocupacional. O serviço deve incluir assistência social, assistência legal,

atendimento familiar, profissionais que trabalhem especificamente questões

ligadas à auto-estima e ao corpo, como nutricionista, etc.

 

No caso de uma mulher que sofre algum tipo de violência, qual a

importância de um tratamento específico?

Resp.: A mulher não necessita sofrer ou praticar violência para precisar de

tratamento específico. Hoje, nós atendemos uma taxa de mulheres

homossexuais na equipe de 11%. Então, temos mulheres que não se sentem

bem em serviços mistos. A mulher quando pára de beber em geral, terá que

tratar outros problemas de alimentação, auto-estima, entre outros. Se você não oferecer algumas alternativas, a mulher não consegue parar de beber.

 

Quando a paciente recebe alta, o tratamento chegou ao fim? A mulher de fato está melhor?

Resp.: Melhorar não é só parar de beber, melhorar é mudar de vida. Para receber alta de um tratamento, não

só a abstinência é importante. A paciente deve reformular o modo de vida, as relações familiares, afetivas e

voltar a exercer atividades produtivas e prazerosas.