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Co-dependência e mulheres: uma questão de gênero?

Co-dependência e mulheres: uma questão de gênero?

 

O conceito de co-dependência é amplo, polêmico e não se restringe unicamente a mulher. Entretanto, este artigo apresentará uma breve revisão do conceito de co-dependência e a reflexão crítica deste com as mulheres que se relacionam com dependentes de drogas (esposas, mães, irmãs etc.)

 

As origens do conceito de co-dependência podem ser encontrados na década de 1930, em algumas instituições de saúde mental nos Estados Unidos - EUA, quando assistentes sociais começaram a entrevistar  esposas de dependentes de álcool. Nestas entrevistas estas mulheres se mostravam significantemente ansiosas, angustiadas, com alto índice de depressão e demasiadamente preocupadas e vinculadas aos seus esposos; O termo começou a se estruturar (concomitante aos Alcoólicos Anônimos) em 1940, com o estudo sobre família e dependência, mais particularmente sobre as mulheres de dependentes de álcool. Em 1950 as esposas de dependentes de álcool membros do Al-Anon (é uma associação de homens e mulheres cujas vidas foram afetadas pela maneira de beber de um familiar ou amigo) começaram a se mobilizar e iniciaram um trabalho em grupo, voltado para elas mesmas, com a finalidade de discutir suas vivências com os esposos e debater situação de estresse a qual viviam. Assim, estas esposas e até mesmo outros familiares começaram a desenvolver estratégias de convivência com o estresse criado no ambiente familiar com a presença da droga. Neste sentido, historicamente o conceito esteve relacionado às esposas de alcoolistas; e estas, por muito tempo, foram à população de pesquisa, quando o tema se referia ao dependente de álcool e sua família, sendo a princípio “rotuladas” de co-dependentes. No entanto, na década de 70 com a ampliação do conceito de dependência e o desenvolvimento de abordagens sistêmicas, as definições de co-dependência também se estendem e de acordo com os pressupostos teóricos de diferentes abordagens passou a ser um termo transitório que pode estar relacionado tanto a dinâmica das relações pessoais  com dependentes de drogas como a dinâmica das relações interpessoais disfuncionais que comprometem os processos de  autonomia e diferenciação familiar e que não necessariamente envolve drogas. O termo tem sido objeto de estudo tanto das abordagens médicas quanto psicológicas, psicossociológicas e sistêmicas.

 

A abordagem médica psiquiátrica refere à co-dependência como um distúrbio de personalidade que pode ser diagnosticado por meio de cinco sinais básicos (Cermak, 1986, Morgan 1991):

 

1.   A auto-estima se baseia na habilidade que demonstra em controlar sentimentos das outras pessoas frente

às situações adversas;

2.   Supõe responsabilidade excessiva de satisfazer as necessidades das outras pessoas, aceitando deixar de

lado as  próprias;

3.   Envolvimentos com pessoas que apresentam distúrbios de personalidade;

4.   Ansiedade e distorções de limites sobre intimidades e separações;

5.   Ter persistido em relacionamentos com dependente de drogas, por pelo menos dois anos sem procurar

ajuda. Esta abordagem propõe vários instrumentos para avaliar a co-dependência (Lindley e al, 1999,

Harkeness, 2001).

 

A abordagem psicológica enfatiza que codependentes são pessoas que valorizam mais o que está acontecendo com os outros à sua volta (geralmente familiares) do que em si; tentam ter o controle sobre a vida dos demais, perdendo o contato com seus próprios sentimentos e comportamentos.

 

As abordagens psicossociológica e sistêmica, questionam o termo e referem que este pode ser um rótulo preconceituoso colocado nas mulheres, especialmente às mães e esposas de dependentes de drogas. Ressaltam a valorização do papel social da mulher como cuidadora e as expectativas que elas cumpram esta função, entretanto, quando estas desempenham o papel aprendido, e este está vinculado às relações com homens dependentes de drogas, acabam sendo rotuladas de “co-dependentes” (Fuller e Warner, 2000). Estes pressupostos enfatizam que as relações que as mulheres estabelecem com companheiros, filhos, irmãos dependentes de drogas devem ser compreendidas sob a perspectiva de relações complementares, com funções para ambos e não apenas as mulheres.

 

A literatura científica atual ressalta que o termo co-dependência teve seu uso vulgarizado, muito popularizado e fez com que este perdesse a especificidade; tem ainda sofrido pouca investigação empírica podendo ser o motivo da falta de definições operacionais, as definições excessivamente amplas propostas tornam o conceito ainda frágil, perdendo o rigor teórico.

 

No Brasil ainda são incipientes estudos sobre as relações complementares de mulheres com parentes dependentes de drogas. Neste sentido, é temeroso atribuir uma tipologia específica em relação às mulheres que se vinculam aos usuários de drogas.

 

Eroy Aparecida da Silva,

Psicóloga, Psicoterapeuta Familiar,

Pesquisadora na Área de Álcool e Outras Drogas –

Unidade de Dependência de Drogas - Departamento de Psicobiologia -

 Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
eroy@psicobio.epm.br
 

 

 

Referências Bibliográficas:

- Cermak,T.L.; (1986) Diagnostic Criteria for Codependency, Journal of Psychoactive Drugs, 18(1),15-20.

- Fuller,J.A.; Warner,R,M.,(2000) Family Stressors as Predictors Codependency, Genet Soc Gen Psychol

Monogr.Feb.126 (1),5.

- Harkness, D.; Cotril,G.; (2001) Testing Cermak’s Hypothesis: Is Dissociation the Mediating Variable that Links

Substance Abuse in the Family of Origin with Offspring Codependency? Journal of  Psychoactive Drugs 33(1).

- Lindley,N.R.; Giordano,P.J.; Hammer,E.D.; (1999) Codependency: Predictors and Psychometric  Issues,

Journal Clinic Psychology, 55 (1),59-64.

- Morgan,J.R.; James,P.; (1991) What is Codependency, Journal Clinic Psychology ,47(5),215-219.