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Crime e Sociedade: desmistificando alguns conceitos tradicionais da esquerda utópica

CRIME E SOCIEDADE

(desmistificando alguns conceitos tradicionais da esquerda utópica)

Tania Jamardo Faillace*

O ciclo das ditaduras latino-americanas dos anos ’70, além do adiamento indefinido da solução dos problemas continentais, deixou algumas seqüelas psicológicas, até hoje não resolvidas.

1. O preconceito e/ou superstição em relação às Forças Armadas, isto é, a recusa a analisar de forma objetiva a questão militar e a defesa armada da soberania, embora qualquer um reconheça facilmente o papel dos canhões, mosquetes e trabucos na derrota dos povos indígenas da América, e o exemplo recente do Afeganistão mostre quanto estrago pode fazer o mais armado contra o menos armado.

Essa atitude de "não me falem disso", emocional e supersticiosa, levou até o momento, a que não se tentasse equacionar a inserção social daquele segmento de servidores públicos, como se eles fossem elementos estranhos à própria sociedade e ao conceito de cidadania - vistos preconceituosamente como autênticos fetiches de um Poder Mágico e Totêmico.

2. O preconceito contra a palavra "repressão", reflexo condicionado adquirido no mesmo período, tem levado a desconsiderar a obviedade de que a organização estatal é inevitavelmente coercitiva, que o poder de normatização, fiscalização e punição relativos à observância dos regramentos civis e legais, são claramente repressivos, seja em forma de corte de serviços por dívida, multas, interdições, remoções, arrestos, confiscos, cassações, desapropriações, demolições, suspensão de direitos, detenções ou reclusões, tanto por ordem administrativa como por sentença judicial.

Apenas uma sociedade total e plenamente auto-gestionária (anarquista), com um alto grau de civismo e auto-disciplina, poderá dispensar o poder coercitivo de leis e instituições, no momento em que os cidadãos forem o bastante educados e generosos para respeitar espontaneamente os direitos de seu semelhante.

3. A visão romântica do sociopata, veiculada pela cultura norte-americana de mass media, em que o "bandido" aparece, ora como o rebelde, inconformado com as regras sociais, ora como o pobre coitado pressionado pela necessidade numa sociedade cruel, também favorece uma visão distorcida do fenômeno do marginalismo criminal, como inerente às classes desfavorecidas, numa evidente manifestação de preconceito elitista e pequeno burguês, que simplesmente ignora a realidade dos fatos.

 

CONDIÇÃO HUMANA

O comportamento egoísta, por vezes prepotente (quando apoiado na força),por vezes desleal e traiçoeiro, faz parte do repertório comum ao ser humano. Eva acusou Adão, e Adão acusou Eva, cada um procurando defender-se pela delação e incriminação do outro. Caim matou Abel por ciúme, despeito ou inveja, e nenhuma dessas personagens era favelada ou passava fome.

É através de uma formação precoce e uma educação voltada para a solidariedade, as atitudes afetivas, a colaboração e o reconhecimento dos direitos do outro, que o ser humano se torna um SER ÉTICO.

Essa formação precoce vem não apenas da família nuclear, como da cultura dominante vigente. E, certamente, também das peculiaridades individuais e subgrupais. Igreja, escola, hábitos familiares e de vizinhança, meios de comunicação, estabelecem escalas de valores - nem sempre coincidentes - que influenciarão o indivíduo a montar seu próprio código de comportamento, e a valorizar, a mais ou a menos, atitudes e ações.

No mundo globalizado, temos assistido a uma progressiva e ininterrupta degradação dos valores éticos e das relações humanas, com a glorificação oposta da permissividade total, da banalidade, da violência gratuita, da sexualidade grotesca, do narcisismo, e de todos os anti-valores caros tanto ao capitalismo selvagem como ao neo-colonialismo, que necessitam da desintegração social e moral das populações parasitadas (pouco pão, muito circo; muita competição, pouca colaboração), em direção ao triunfo universal da conhecida "Lei de Gérson" (levar vantagem em tudo).

Não é correto atribuir os altos índices de criminalidade às populações pobres. Pelo contrário, é junto delas que melhor se conservam os valores tradicionais dos laços de sangue (familiares), da religião, dos costumes, justamente por estarem elas menos expostas aos sofismas da amoralidade modernosa, em que caem tanto a direita pragmática, como a esquerda utópica (que se esforça em amalgamar e digerir uma mistura de contra-cultura dos anos "beat", com franciscanismo e estruturalismo - conceitos antes de realidades).

Diferente do que se divulga, a criminalidade por atacado é (e sempre foi) patrocinada por instituições legais e organizações sócio-político-econômicas, que nada têm de pobrezinhas, desvalidas ou ignorantes.

 

A BANDIDAGEM ARISTOCRÁTICA

A pirataria dos séculos XVI e XVIII não foi obra de infelizes desesperados, mas parte de uma estratégia política e econômica bancada pelas grandes casas reais e a alta burguesia européia (os eventuais free lancers sempre foram devidamente enforcados). O narcotráfico se tornou um negócio internacional e altamente lucrativo sob a égide da impoluta Rainha Vitória, da Grã Bretanha, que desencadeou três sangrentas Guerras do Ópio (século XIX) para obrigar o imperador chinês a descriminalizar o tóxico, e permitir o consumo livre da mercadoria, então produzida na Pérsia (atual Irã) e comercializada pelos ingleses.

Nos anos ’70 do século XX, as contas numeradas suíças financiavam o mesmo tráfico, com pleno conhecimento das autoridades, e os laboratórios industriais europeus refinavam a pasta de ópio, produzindo sais de morfina e heroína, embarcados para o mundo pela conexão de Marselha, na França.

Foi por decisão política de cúpulas do Primeiro Mundo, que se instituiu a juventude como principal público-alvo da droga, no propósito de desmantelar sua incipiente organização política, de inspiração anarquista e social-utópica, com algumas pitadas de espartaquismo (vertente socialista de Rosa Luxemburgo e Lübneckt). Ao final dos anos ’60, tivemos a rebelião dos jovens na França , em maio de1968; a revolta contra a guerra do Vietnã e a sociedade de consumo, nos Estados Unidos; a revolução cultural chinesa contra o burocratismo e o fisiologismo político; e, no Brasil, o último congresso da UNE militante.

 

MÁFIAS

No Brasil, a Máfia tradicional começou a instalar-se mais efetivamente nos anos ’60, através dos cassinos clandestinos (todas as propostas para liberar os jogos de azar têm por base esses interesses) e o tráfico de cocaína, ainda em pequena escala e concentrado em áreas de turismo, com distribuição voltada à alta classe média.

Na época, a cocaína não tinha a importância atual, pois a Pérsia do Xá Rheza Pahlevi, um grande amigo dos Estados Unidos, fornecia a morfina e heroína que o mundo ocidental consumia (é interessante lembrar o uso de tóxicos entre os recrutas da guerra do Vietnã com o beneplácito de seus superiores).

Com a revolução islâmica no Irã (ex-Pérsia), em 1979, e a execução em massa de bandidos e traficantes, os ocidentais foram obrigados, não apenas a renunciar ao petróleo baratinho daquele país, como aos frutos de suas papoulas.

Deu-se o boom da cocaína e dos cartéis colombianos. Convém não esquecer que a planta coca foi considerada medicinal, dela retirando-se princípios ativos importantes para a Medicina, como analgésicos e anestésicos, e até fórmulas de refrigerantes. De uso tradicional entre as populações andinas, que mascava (e masca) suas folhas, não passava (não passa) de um estimulante como o café (cafeína), o chá e o chimarrão (teína), um tanto mais potente.

Foi necessária a intervenção de capitalistas interessados em investir na produção em escala com tecnologia específica, para que dessas folhinhas se extraísse uma droga concentrada capaz de provocar dependência química e psíquica e alteração da percepção e do comportamento humanos.

Posteriormente, com o desmantelamento da União Soviética, formou-se a Máfia russa, composta por funcionários veteranos e ex-militares do velho regime, que se apropriaram dos arsenais desmobilizados pelo fim da Guerra Fria, numa rede de contrabando de armas, tão agressiva como a norte-americana, mais antiga no ramo.

Bem antes disso, a Máfia norte-americana já investia pesado na pornografia e na prostituição, tanto adulta como infantil. Pornoshops, revistas de pedofilia e outras variações sexuais (hoje sites eletrônicos), turismo sexual, espalharam-se pelo mundo de forma articulada, na esteira da derrota dos sonhos socialistas. Tais atividades foram assumidas pelo crime organizado sob diversas capas e disfarces, com muito bom dinheiro, fornecido pelos caixas 2 de grandes empresas. Somaram-se a isso, práticas mais modernas, como o tráfico de órgãos humanos e de crianças para os mesmos fins.

Em meados da década de ’90, um trilhão de dólares escriturais financiava a festa.

 

BRASIL

O Brasil, com sua corrupção endêmica, sua grande extensão e população, a brandura de suas leis penais, a fragilidade de seu Judiciário, a inexpugnabilidade de algumas de suas regiões, só podia tornar-se um pólo de atração para todos esses negócios. Nos últimos anos, vêm sendo estruturados os comandos regionais das várias máfias, que elege seus representantes, inclusive para o Congresso Nacional. Hoje, o Brasil, em escala infinitamente maior, repete Cuba na época de Fulgêncio Batista.

É essa realidade que precisamos encarar para compreender as razões da violência desatada que hoje enfrentamos nas cidades brasileiras.

Há pobres trabalhando para os senhores do crime, pretendendo "enricar" e viver na gandaia, sem freios? Há. Assim como há pobres trabalhando em empresas normais do setor produtivo e de serviços, que não se iludem com "enricar" e só almejam condições razoáveis de vida e trabalho, e o respeito da comunidade.

Neste mundo, quem pode, manda; quem não pode, serve.

O crime organizado, afinal, é uma atividade econômica de cunho capitalista, isto é, objetiva lucros crescentes através da ampliação dos mercados e redução dos custos, com total desregulamentação legal. Não paga impostos (as propinas saem mais baratas), não assina carteiras de trabalho, e disciplina sua mão-de-obra mediante coação física (também sai mais barato).

A direita tradicional gosta de misturar as coisas, assemelhando a violência eventual da luta política com a violência criminosa profissional, e cometendo a impropriedade de tratar trabalhadores em revolta como se fossem capangas a serviço de criminosos de carreira.

Estes, isto é, os "verdadeiros chefões" - não confundir com seus testas-de-ferro notórios - não são reconhecidos como tais. Financiam atividades "culturais-populares", dão esmolas, distribuem favores, propinas e subornos, financiam políticos e outros que tais.

A esquerda utópica, em seu preconceito elitista, não os considera criminosos, apenasmente corruptos, quando os identifica. No entanto, sem eles para o financiamento, receptação, capacidade de organização e direção, redes de distribuição e tráfico de influência, os criminosos pobres ficariam restritos a bater carteiras e assaltar galinheiros. Quem os financiaria para altos vôos criminais? Quem os treinaria para exibirem tanta destreza e coordenação na ação e planejamento? (sabe-se hoje que são militares desincompatibilizados).

O crime organizado não é um fenômeno marginal: é parte integrante da sociedade de classes e ramo não reconhecido da economia capitalista.

A ingenuidade é mortal. A ingenuidade por parte da esquerda leva à maioria dos macro-desastres políticos que conhecemos.

 

* Tania Jamardo Faillace - jornalista e escritora (tjfaillace@terra.com.br)